sexta-feira, 31 de agosto de 2012

De um Compromisso Ético


Essa semana a Psicologia no Brasil completou 50 anos e apesar de certa idade, a construção de sua conduta e movimento não para.
Para muitos, ainda é um campo nebuloso, onde o que se entende daquilo que escuta é o lugar do louco, do problemático, do diagnosticado ou do incompetente sobre suas fraquezas; mas aqueles que se aproximam acabam captando 2 compreensões de extrema relevância: área de atuação e abordagem nos diversos campos da psicologia.


Como área de atuação pode dizer das abrangências e suas especificidades, das mais clássicas (clínica, social, educacional, organizacional) às contemporâneas e suas subdivisões (hospitalar, coaching, política, teológica, alternativa, etc). Cada uma das palavras se desdobrando conforme sua abordagem, que no sentido da palavra traz a questão de como se toca, se chega, se aproxima do seu sujeito e como cria através de um olhar específico um contorno para compreende-lo.
Na área clínica é comum ouvir pessoas perguntando : mas tal pessoa é psicanalista ou comportamental? Qual tipo de terapia me ajuda mais rápido? Saúde Mental é aquela de loucos né, pra quem toma remédio? Essa coisa de bioenergética vem dos “bichos grilos”... e assim vão se criando diversos discursos sobre a psicologia. Mesmo que muitas vezes distantes da proposta da área e abordagem, a vantagem é que hoje em dia o preconceito sobre a necessidade de um psicólogo, ou sobre um campo de sua atuação vem diminuindo, pois cada vez que se fala sobre algo, bem ou mal, abre-se uma janela de comunicação.
E é nesse ponto que vem a direção de minha reflexão sobre o compromisso ético do profissional psicólogo, seja em qualquer área, de qualquer abordagem, como disse Silvia Lane “toda psicologia é social” e essa afirmação ecoa no fato de que o psicólogo precisa manter seu olhar atento ao cenário, ao contexto, à repercussão do tempo sobre a “questão” daquele sujeito que diz o que diz naquele momento.
O psicólogo tem a responsabilidade de “escapar” do lugar do suposto saber. Quando alguém o procura atrás de respostas ou diretivas sobre ele mesmo, o psicólogo propicia ao “cliente”, “objeto de estudo” , “paciente”, “aluno”, a “instituição”; a possibilidade de se posicionar enquanto sujeito, enquanto aquele que para se conhecer precisa perguntar de si mesmo e duvidar de suas certezas prontas, construídas dentro de sua história as vezes sem reflexão, por mera reprodução,  aceitação  ou defesa.
O bom psicólogo não é apenas aquele que escuta o sujeito que quer falar, também é aquele que olha o sujeito que desapareceu em sua fala, que está silenciado pelo contexto que o segmentou num lugar em que ele mesmo não existe enquanto agente, mas como subordinado aquele papel. Bons exemplos vem sobre a questão do aumento da medicalização de crianças com hiperatividade, os usuários de drogas, os comprometidos psiquiatricamente; são pessoas que não tem condição de questionar muito bem o lugar onde a sociedade os destina, porem vivemos num tempo em que todos procuram em si um diagnóstico, uma pílula que amenize o sentir da vida, à esses o psicólogo também direciona um olhar cuidadoso e se pergunta “porque estamos tão incapazes de lidar com nossos lutos? Porque não suportamos mais nada que nos remeta um sofrimento? Quando foi que compramos a ideia de felicidade imediata?” .
O compromisso do psicólogo está em procurar esse sujeito, que está cada vez mais escondido, “adaptado”, amortecido ou isolado de sua essência; lembrando a ele um lugar em que é possível haver conflito sem precisar produzir sintomas. Provocar mudanças ou rompimentos que causam angústia, exatamente porque a exigência vem de negar a angustia que é inerente ao humano.  Talvez a delícia esteja nisso: lembrar o humano de que se é humano, que não se está pronto, de que não se é limitado ou fadado aquilo que se julga naquele momento, que tudo é passível de dúvida e que isso pode ser encarado de forma saudável desde que não sufoque a sua relação com o outro, a fim de satisfazer e atingir objetivos inventados.
Nenhum texto será capaz de exprimir as atribuições do psicólogo, mas esse talvez possa lembrar que o psicólogo não julga, não prevê, não impõe, não ensina,  não se aprisiona numa postura moral; ao contrario, a psicologia vem abrir portas em que se pode se despir de preconceitos, de pré julgamentos, pré potências para construir outras coisas e mesmo assim, nem essas terão a pretensão de serem insubstituíveis, pois ao humano cabe estar em constante movimento.
Sendo assim, parabenizo a todos os profissionais de psicologia que se amparam antes no seu compromisso ético, em seus recursos teóricos e nos respaldos que a profissão nos dá do que aqueles que confundem sua prática com a disseminação de seus valores morais e fazem dela palco de suas vaidades.

sábado, 7 de julho de 2012

Amor virtual...


Já reparou como todo mundo é feliz no facebook? Quem pode garantir que aquilo não passa de um flagrante momentâneo, mas no restante do tempo a pessoa passa por uma série de outros sentimentos?
 Relações exclusivas pela internet podem facilitar que você ou o outro dê o melhor de si naquele momento em que está com ele, mas que nos outros tenha preguiça, mau humor, raiva, como todo mundo, porém se o outro não vê, acaba gerando nele uma expectativa de que você é o máximo. Será que ele vai aguentar quando for simplesmente você?
Não é a internet que cria expectativas falsas, é a maneira como as pessoas se comportam nela que pode orientar os rumos das suas relações; que vão se transformando conforme o passar do tempo, e se adaptando a todas as mudanças sociais. Em tempos de internet a velocidade de informações é imensa, mas devemos nos perguntar o que fica depois do filtro daquilo que vimos na internet?
Muita coisa pode ser superficial e ser só um floreio do que realmente importa, e isso pode não ser diferente num relacionamento virtual por exemplo. Quando pessoas se conhecem pela internet sempre correm o risco de se envolverem com aquilo que idealiza de quem está do outro lado, o outro pode caprichar tanto em suas virtudes (ou no que acha que são suas virtudes) que acaba não se mostrando realmente. Esse é um fator que se com o passar do tempo não for resolvido e diluído durante a relação pode se tornar um grande problema, pois os parceiros sempre vão ter a sensação de que vivem o amor de propaganda, que está faltando alguma coisa e que quando se encontrarem pessoalmente a expectativa pode ser tão alta que se torna inatingível.
Nem só de ilusões se faz um amor virtual, claro que a internet propicia a casais já formados, com necessidades locais diferentes a possibilidade de manter contato. Imagine um casal que precisa morar em cidades diferentes de repente, fazer um curso fora ou trabalha viajando, como é satisfatório chegar em casa e ter alguém no skype te esperando? Ou um email, post ou qualquer coisa do gênero todo fofinho dizendo que está com saudade?
Para alguns a distância alimenta o sentimento de saudade sem necessariamente ser vivido com insegurança, nesse caso a internet é um excelente recurso. Porém, para casais inseguros, imaturos ou frágeis as redes sociais favorecem o ciúme, a paranoia, insegurança, fazendo com que um vá vasculhar a vida virtual do outro e assim criar conflitos entre os dois.
Um simples comentário de um amigo na internet, uma foto do outro se divertindo no mesmo dia em que dizia o quanto estava sentindo a falta do parceiro pode ser motivo de brigas ou separação, além dos mais persecutórios que desejam dividir as senhas para ter acesso às contas, emails e redes sociais.
 Enfim, um casal não se define por onde se relaciona, virtual ou pessoalmente, se define pela FORMA com que se relaciona, de maneira confiável, segura, respeitável e saudável ou não. Se uma pessoa for ciumenta na vida real, também o será na virtual, deslocando apenas os focos de incêndio dessa relação, isso também vale em relação às traições. Alguém que trai o faria com ou sem internet, o que mudou foi o acesso às possibilidades e a responsabilidade ligada a isso. É preciso se refletir sobre o ciúme ou a traição não apenas como atitudes, mas com que sentimentos estão ligados, como insatisfação, boicote, insegurança, repetições, entre outros e outros...
Nada pode garantir que uma grande paixão vire um grande amor, muito menos que vire cinzas só por que veio pela internet, o que facilita que a relação dê certo é a sinceridade e o investimento emocional verdadeiro empregado nela. Isso vale pros 2 mundos, tanto real como virtual, é preciso ser você mesmo, até com defeitos! Estando tudo tão disponível e tão maquiado no mundo virtual o risco que se corre é que se você for apenas mais um, pode ser descartável, e rapidamente substituído.


Texto de entrevista à Gazeta de Piracicaba, em 08 de julho de 2011, série Amor pela Internet...

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entre o domínio e o contorno parental


Em nossa sociedade atual, contemporânea vivemos a invenção da Infância e mais recentemente a supervalorização do período de maturação chamado de adolescência.
Alguns séculos atrás as crianças não existiam, eram considerados mini adultos, se vestiam como tal e não eram preservados em nenhum momento de alguma situação constrangedora ou superior ao seu estado de desenvolvimento. As relações sexuais entre os pais não eram privadas, já que todos dividiam os mesmos quartos, os falecimentos e lutos eram colocados de forma natural, explicações delicadas ou simplórias não existiam, enfim; não havia tanta preservação ou compreensão sobre o estado peculiar de desenvolvimento de uma criança.
Foi a partir da Revolução Industrial e da necessidade de se ampliar direitos em relações às mulheres e ao trabalho que surge a infância, criam-se escolas, definem-se períodos diferenciados de desenvolvimento e atenção dispensados a elas e com maior contingente urbano a estrutura doméstica passa a ter novos formatos, criando então a ideia de privacidade, individualidade, personalidade e outros conceitos que dão contorno ao que aquele pequeno sujeito virá a ser quando adulto.
O que passa por essa transformação contemporânea além dos benefícios dessa particularização do sujeito também é o conflito em que os pais de hoje são constantemente postos, diante de uma urgência de novos entendimentos que muitas vezes não é acompanhada culturalmente na mesma velocidade que a tecnologia chega. Pensando nisso, precisamos analisar nosso tempo, refletir sobre o quanto ficamos presos ou constrangidos em tentar dar um contorno aos nossos pequenos sujeitos, nossas crianças e adolescentes que cada vez mais nos colocam diante de desafios e surpresas, pois na geração anterior esse conflito não existia.
Para compreender melhor basta pensarmos nos resfriados que tínhamos quando criança; o remédio era xarope, chá, leite com açúcar queimado e cama, quando uma mãe de 3 filhos se deparava com 1 com catapora, logo tratava de dividir com os outros a mesma toalha, mesma colher de sopa, tudo o que fosse necessário para que os 3 ficassem doentes ao mesmo tempo e assim ela cuidar deles de uma vez só, sendo quem um irmão ficaria mais compreensivo com o outro se também estivesse em sofrimento. Não estou dizendo de 100 anos atrás, estou dizendo talvez nem de 30 anos atrás, isso era visto com naturalidade e educação domiciliar herdada! Hoje, na primeira crise de espirro além do Resfenol já pular pra fora da gaveta de remédios, marca-se o pediatra e reza pra não ter que deixa-lo faltar da aula pois a mãe tem q trabalhar. Essa é apenas uma comparação sobre a diferença sobre os cuidados, mas que também reflete a mudança sobre um comportamento geral da sociedade, onde todos tem que ser especialista em algo para nos livrarmos da responsabilidade compartilhada em família. O conhecimento letrado vale mais do que a sabedoria popular e isso traz consequência tais como a medicalização de todo sujeito, insegurança na postura dos pais perante uma educação mais rígida sobre as crianças e um medo constante de um adoecimento,  seja por medo de uma queixa de violência causada por vizinhos e outros mecanismos de defesa de direitos da criança e adolescente, ou até mesmo o medo ou uma sensação de que aquela relação entre pais e filhos está tão fragilizada que se o pai não der conta de satisfazer uma “urgência” real ou não o filho pode deixar de amá-lo, afinal de contas por trás disso existe o sentimento de culpa ou a consciência do quanto os pais cada vez mais estão ausentes em nome do padrão de vida desejado via TV, escola, amigos e etc.
O preço que se paga é que ao contrário de se criar um contorno sobre a criança, algo que o identifica com a família e assim ele pode assumir aquela herança como referência e como acolhimento sábio e afetuoso, acabam se criando domínios, disputas de poder entre pais e filhos, desde a hora do banho em que a criança vence pedindo ou enrolando por mais 5 minutos, ou a decisão sobre o que iremos jantar,  onde vamos passar as férias ou como é a casa onde iremos morar.
Para tentar lidar com essa culpa da ausência, ou sobre essa fragilidade no que é compreender ser pais nos tempos da internet, ECA, individualismos, Bullyng e outros padecimentos é preciso que os pais retomem as rédeas da casa. Existe uma expressão nada capitalista, nem tão pouco moderna, mas meramente eficiente: “ Não pergunte o que seu filho quer para o jantar enquanto ele não puder pagar a conta”. Isso não significa que você deve ignorar as preferencias de seu filho, mas diz com todas as letras quem tem os recursos para contornar, posicionar e oferecer o que naquele momento a vida está pedindo são os adultos; pois apesar de toda criança preferir macarrão com salsicha é no arroz com feijão que garantimos os nutrientes necessários para que ele se desenvolva sem ficar desperto e elétrico artificialmente a ponto de deixar os professores loucos e acabarem o rotulando como mais um hiperativo.
Os direitos das crianças e adolescentes foram criados não para eles ficarem mal criados, mas sim para que haja consciência de que no mínimo até os 18 anos eles não tem condições de definir o rumo da própria vida sozinhas, são os adultos, em primeiro lugar os pais os responsáveis diretos sobre as decisões. Os pais, separados ou não como casal, mas aliados, parceiros na educação dos filhos precisam dedicar suas angústias a si mesmos, se fortalecendo e se preparando para que na linha de frente em relação aos filhos possam estar seguros das decisões tomadas em dupla. A criança é o terceiro do casal, ela chegou depois, portanto deve respeitar e confiar na autoridade parental para aceitar em harmonia os rumos que a família precisa tomar, seja sobre condições financeiras (poder ou não dar o celular da moda), seja sobre os comportamentos em convívio (jantar na cozinha, sala ou no quarto), entre outros. Para tanto, os pais devem se lembrar que são os adultos, que conhecem as crianças desde o começo, que se essa criança aprendeu a lidar com frustrações será um adolescente potente, que se essa criança for superprotegida apenas para os pais se livrarem da culpa ou para realizarem nos filhos as ausências que tiveram na infância o resultado será o fracasso, não porque esse adolescente irão adoecer, mas porque ele vai continuar disputando o domínio com os pais e com mais energia, chantagens emocionais ou artimanhas típicas da idade em que o mundo apresenta o tempo todo novidades e traquejos para o isolamento, exclusão do outro e desvalorização da educação em nome do que se pode consumir com urgência.
O desejo das crianças e adolescentes precisa ser contornado pelo desejo dos pais, não dominados por ele. Nos tempos de consumo de individualidade e descartáveis é preciso aprender a reciclar valores, retomar antigas estratégias e recursos emocionais para mostrar aos filhos que em casa os pais não mandam porque mandam, os pais orientam porque sabe que isso é realmente o melhor e confia que o filho é capaz de herdar o mesmo bom senso, afinal numa família não é preciso ter o mesmo sangue para se ter a mesma cultura.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Um Cantinho Escondido: Aprendendo a se deixar cuidar

Um Cantinho Escondido: Aprendendo a se deixar cuidar: Até parece balela ou fragilidade dizer que também precisamos nos deixar ser cuidados num mundo em que a todo momento somos treinados, exigid...

Aprendendo a se deixar cuidar

Até parece balela ou fragilidade dizer que também precisamos nos deixar ser cuidados num mundo em que a todo momento somos treinados, exigidos, cobrados e praticamente forçados a engolir a seco que devemos lutar por nossa independência e nos mantermos em constante movimento, mas existe algo muito maior que nós e que devia ser sagrado: o Tempo!
Não esse tempo cronológico que fica te dizendo que se não continuar correndo você não vai concluir uma meta que até alguém inventar nem existia. Estou falando do tempo do inconsciente, do tempo do corpo, da maturação e da maturidade dos sentimentos.
Quando nos achamos totalmente donos de nós mesmos, plenos de controle sobre nossa vida sempre aparece um resfriado, uma dor de cabeça, uma cólica, ou qualquer outro sintoma pra dizer "viu, eu estou aqui, sou eu quem estou te levando a todos os lugares, dá pra cuidar de mim?". Por muitas vezes a gente prefere não ouvir esse chamado, dorme menos se precisar, almoça sanduíche, toma um remedinho assim que espirra pela 3a vez.
Já ouvi uma boa dica sobre resfriados: " com remédio leva 7 dias pra sarar, e sem 1 semana". Quem é que quer sentir o resfriado e não se sentir no controle tomando um resfenol de 8 em 8 horas?
Porém, o tempo uma hora, de repente, vai bater o pé e dizer: "agora chega, é minha vez".
É nesse momento que a gente precisa aprender que mais importante do que o controle do tempo é o sabor do tempo!
Refletir que caminho é esse pelo qual você está seguindo e em nome de quê? O que é que está faltando? Será que não podemos aprender a lidar com essa falta? Afinal a falta é inerente a todo ser humano, não está faltando horas no dia pra dar tempo, está faltando se desapegar dos controles para poder ouvir o que você precisa saber de verdade: O QUE VOCÊ DESEJA?
Qual é a importância de sacrificar seu desejo, alimentar suas angústias para poder atender a expectativa que você pensa que o Outro está depositando em você?
Muitas vezes nos pegamos atendendo a todos, nos colocando; pois é essencial dizermos tudo o que pensamos e demarcar nosso território, mostrar o quanto somos potentes, eficientes, quase perfeitos no ideal do outro e quando percebemos nos perdemos por ai... Já nem sabemos mais se o que fazemos é por mim ou pelo outro, e se for em nome do outro como isso me realiza, e etc etc, fica tão difícil que é melhor ligar o automático e deixar a vida correr.
Hummm eu sugiro que não. Não espere a vida se resolver sozinha, pare para pensar, repensar, angustiar, duvidar, conflitar, desmontar, reconstruir, jogar fora, se agarrar àquilo que realmente lhe provoca sentido.
Qual é a receita? Perguntam os neuróticos obsessivos... Não tenho, mas devolvo outra pergunta: Quanto tempo faz que você não se solta de todos os pudores e medos no cólo de alguém importante? Há quanto tempo dar uma gorjeta é mais importante do que olhar nos olhos e dizer obrigado a alguém que fez um gesto pequeninho que te facilitou a vida?
Namorar, ficar a toa, rir com pessoas queridas, chorar sozinho ou acompanhado, isso e outras coisinhas são mais luxuosas e ricas do que qualquer Resort do Nordeste brasileiro!
Poder olhar pra alguém e enxergar cumplicidade e confiança é mais valioso do que qualquer consulta particular de um médico famoso pra descobrir qual é sua dor de estômago.
A vida é muito mais simples e menos amarga quando os valores das relações não se misturam com as cifras do cotidiano.
Aprender a se deixar cuidar também é poder mostrar pro outro que as vezes não fazer nada é ganhar a chance de apenas fazer a coisa certa!

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Atrito

Hoje tive a curiosidade de procurar no dicionário essa palavra, com certeza porque vivemos em permanente atrito com o mundo; e pra quem acha que eu estou sendo exagerada, reflita sobre os significados possíveis segundo o Houaiss ( o dicinário que mais amo!)

Atrito: 1.sm, fricção entre dois corpos duros ou ásperos, roçando um no outro; 2.sentido figurado, dificuldade de entendimento resultante de uma desarmonia entre caracteres e pontos de vista; 3. física, resistência que se opõe ao movimento relativo de dois corpos sólidos em contato.

E então, entrou no clima? O Atrito pode estar no momento de amor..."roçando um no outro" e quem dera amolecendo nossas defesas, nossos corações, nossos medos de termos virado pedra de gelo ou só um pedregulho de tanto que já passamos por poucas e boas na vida. Ai, o atrito do amor, que saudável, que abre possibilidade de se contruir outra coisa, o atrito de duas pedrinhas que geraram o fogo, que aconchegou os homens, que nos aqueceu, que transformou materiais, que reune até hoje em volta dele pessoas atraídas pelo seu poder! 
E por essa palavrinha de poder é que o atrito passa ao seu sentido figurado, em que a dificuldade do entendimento do outro, a resistência instintiva que ás vezes temos em nos transformar, a angústia de lidar com as transformações e muitas despedidas que nossa vida vai moldando é que provocam esse atrito.
O atrito pode ser algo destrutivo sim, mas apenas àqueles que não se roçam no outro com intenção de construir algo, mas sim com o desejo de impor algo, de que se arranque uma lasca do outro em benefício da sensação de mais forte que isso pode trazer. As vezes na mesma relação, em que antes o atrito era gostoso, as idéias, os aprendizados, os caminhos vão se desfazendo ou se modificando de modo que não faz mais sentido produzir algo em comum e é exatamente nessas horas que é preciso olhar com amadurecimento para esse atrito.
Mudar os caminhos, deixar pessoas, idéias, coisas para trás não significa dizer que aquilo que foi vivido enquanto calor, amor e afeto não tenha valido, significa apenas que já não serve mais. É simplesmente mais um rito de passagem, assim como "abandonamos" nossas bonecas pra brincar de escolinha e depois nossas casas para fazer faculdade, nossos amigos de infância ficam mais longe e começam a aparecer os de faculdade e depois vamos ficando mais velhos, vão passando outras pessoas, vamos produzindo outros sentidos, outros desejos... é a vida que segue!
Porém... ainda temos o sentido da física que vai falar da resistência ao movimento, oposição, como se nossas mudanças internas sempre fossem "vigiadas" pelos fatores externos, como se aqueles participantes ativos de um momento que agora já se torna remoto quisesse ou se sentisse no direito de cobrar pela não despedida, como se você ou ele tivessem culpa da trajetória ter sido alterada e os desejos tenham descoberto sabores diferentes.
Não queridos, não tenhamos culpa de deixar pra trás o que não serve mais, afinal ainda vão estar lá na sua memória, na sua histórias, em seus traços minmênicos todos os resquícios e sentimentos ligados aquilo que passou, bom ou ruim. A questão é que se ficarmos sempre presos à essas dívidas com aqueles que preencheram nossas vidas num passado não conseguiremos olhar o caminho posto a nossa frente, correndo o risco de transformar aquele calor produzido enquanto a relação foi boa em só 2 pedras em atrito, em que uma delas ficou dentro do sapato incomodando a partida.
Podemos sim aceitar que passamos pelas vidas uns dos outros, que enquanto fomos presentes tivemos um significado e nos fizemos significantes, mas isso não nos obriga a ficarmos juntos por educação, sociabilidade ou sei lá qual o nome dado, vai deixar de ser afeto, amor ou amizade para virar falsidade. 
Infelizmente nao existe fogo falso, existe cuidado sobre ele, perto demais queima, longe demais esfria, no lugar certo... aquece.
Se você é alguém que ficou longe demais e agora reinvindica a importância de estar perto por cobrança, lembre-se: vai queimar e pode doer apenas do seu lado,será que já não é a hora de procurar novas fogueiras onde se aquecer?
Ufa! Pra não falar que não escrevi em abril...

segunda-feira, 26 de março de 2012

Oração dos meus 30 anos.


Tenho achado muitas vezes que abandonei o meu cantinho escondido, talvez porque não esteja mais precisando me esconder tanto e as coisas acontecendo lá fora, produzindo sentido ou não, estão conseguindo me captar.
Hoje, sim, exatamente hoje, estou fazendo 30 anos e aquela coisa piegas de recapitular a vida veio a tona... mas de leve!
Vamos pensar que 30 é sim a idade que você assume que agora é tia de um monte de crianças, que as pessoas vão te perguntar se você é senhora ou senhorita e que todo mundo espera um pouco mais de maturidade da sua parte, não dá mais pra brincar!!! Tem gente fazendo 30 e se cobrando porque ainda não tem marido, nem filho, nem carro, nem casa, nem carreira... Opa! Perai!! Que pressa é essa!!! Sai cobrança!!
Quero deixar combinado que passei 3 décadas e as posso dividir em 4, muito bem vividas inclusive!
Na 1a, que acaba aos 8 eu era só criança, com apelidos carinhos, a certeza de um colo constante do meu pai, minha irma mais velha dando apenas a raspa da panela de brigadeiro (só de sacanagem) e judiando de mim brincando de BATMAN! kkkkk Nessa época eu tinha família, até festa de aniversário... lembro da última, da Alice no País das Maravilhas... tudo ótimo!! Viu, ótimo, não perfeito!
Na 2a, começa dia 07/09/1990. Afff essa quase foi interminável. Durou até pelo menos 2004/ 2005. Nao  posso chamar de fase negra, mas com certeza em luto, solitária, em isolamento, parecia que era mais fácil todo mundo me dizer que eu era brava e ficar de fora, mas por outro lado, fiquei dentro, muito dentro de mim, lá no fundo!!!! Fiz amigos que ainda carrego, tive milhões de experiencias que garanto: se tivessem etiqueta valeriam milhões!!!! Desde ganhar gincana na cidade, trabalhar pra UNE, jurar que fazia política, até fazer malabares, mudar de cidade, viver amores torpes! Talvez a fase mais recheada de aventuras, algumas descabidas, mas olha eu aqui... inteirinha!!
A 3a parte fica pro meu orgulho, se mistura um pouco em datas, afinal não existe capitulo na vida, só transições demoradas e nada claras até que acabe! Vamos pontuar que essa foi de 2002 a 2011. Meu codinome passou a ser GUERREIRA! E vamo que vamo, faculdade, dívida, trabalhos, amigos novos e duradouros, erros, riscos, risos e mais e mais e mais por que onde fiz minhas escolhas ou você Pira ou Cicaba! E foi tao legal, ainda é. Sou conhecida por gente que nem imagino e ainda vou continuar vivendo essa sensação, pois enquanto muitos estavam se divertindo eu estava me divertindo e servindo e isso me abriu outro mundo... o meu mundo, de respeito a mim mesma sem precisar mostrar os dentes a não ser sorrindo!!!
Agora, parece que chegou a 4a parte, a de ser mulher. Há!! Sou mulher, ando usando um monte de roupa rosa, faço compra de encher um carrinho pois entrei pra uma família moderna, tenho outras responsabilidades, quero me assegurar das minhas escolhas, ser cada dia mais feliz na carreira que tenho certeza que escolhi direitinho, tenho um marido real... viu: REAL não perfeito, amigos fiéis, desafios mais leves e diferentes que me deixam avaliar que construí de forma sólida algo de bom pra mim. Tomara Deus que essa fase não seja tao curta quanto a infância, nem tao confusa quanto o meu luto, dinâmica o suficiente como minhas ultimas aventuras e surpreende de forma interna para que eu desate os nós que faltam e possa continuar sendo feliz assim do meu jeitinho...

Enfim, como sou metida mesmo: PARABÉNS PARA MIM!!!!!!

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

AH! As ilusões!!!


Quando falo em ilusões, não sei por que, me vem antes as desilusões... Talvez porque são as desilusões que nos provocam mais significados, removem algumas fantasias e nos obrigam a elaborar velhos lutos que estavam ali empoeirados.
Sim, sim, fantasias! São elas que em nosso inconsciente ficam sustentando falsas impressões e provocam repetições de velhos sentimentos. Quantos de nós não nos pegamos de novo incomodados com o jeito de alguém, as coisas que ele fala ou que faz, ou nem faz, mas só de imaginarmos  que faria já ficamos inconformados! Basta dar uma folhada pra trás no livrinho de sua historia que vai perceber que essa pessoa traz a tona algo de outra pessoa que te provocou o mesmo afeto, e algo seu que não conseguiu se livrar ainda, por isso projeta tuuuuudo nele!

Pensando em relações amorosas é até mais fácil entendermos nossos repetecos. Parece que a pessoa atualizada deve promover a satisfação de um desejo que existe antes mesmo dela existir na sua vida, ops! Fadou ao fracasso. Como assim a gente espera que essa pessoa, completamente alheia a sua historia, desligada do seu repertório, já vai chegar completando tudo, resolvendo tudo e suprindo suas faltas? Não dá, se a pessoa for tudo de você o que sobra pra você ser sozinho?
Obviamente, acabamos procurando alguém que mesmo não satisfazendo tudo, acaba que preenchendo alguns requisitos e aliviando algumas angústias infantis;  coisas que te fazem se sentir acolhido e confortável pois de alguma maneira remontam um cenário já conhecido anteriormente. Mas não podemos nos esquecer que o objetivo do texto de hoje é falar das ilusões e pra elas não se tornarem desilusões dolorosas é que falarei delas.
O Outro não poderá nunca preencher suas faltas, suas lacunas... o que é possível é compreender que essa falta não vem dessa figura atual, vem antes, e que já que tem espaço mesmo, é possível se abrir pra novas construções afetivas, pra conhecer em si a capacidade de se ligar a outro Outro, que não é aquele desejado impossível de antes, que é esse real, falho e também esburacado, mas possível e potente de realizar trocas e ligar novas emoções aquele desejo.
Creio que poderia me estender eternamente na discussão sobre isso, mas prefiro ir um pouco mais direto ao ponto. E se cada um se mostrar disponível a entender o que é sua projeção, lidar com isso para poder de fato enxergar o outro, no que ele é, no campo do Real e do Simbólico, pois esse será preservado, quando alguém é capaz de lhe motivar emoções boas ou ruins abra-se pra isso, arrisque a observar e finalmente se posicionar como responsável pelas suas relações e sobre tudo o que dela implica. Quanto mais você se ve como agente das suas relações menos espaço pra ilusões e fantasias vai sobrar, podendo então se alimentar que signigicantes reais, possíveis e também positivos que promovem seu crescimento. Quem toma sempre o mesmo sabor de sorvete, pode estar perdendo a chance de saber como é gostoso com cobertura!!!  rsrsrsrs

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

Operação policial na Cracolândia: fracasso (e negócios) à vista

Escrito por Gabriel Brito, da Redação   
Terça, 17 de Janeiro de 2012


Subjugada pelo Reich tucano há duas décadas, desta vez São Paulo não tardou nada para começar o novo ano sob o signo da barbárie e da desumanidade, invariavelmente voltada contra os pobres e excluídos, isto é, os “vencidos” pelo modelo de sociedade individualista e de mercado que assola nossos dias. No momento, a nova investida contra a cidadania e os mais elementares direitos humanos se dá na famigerada Cracolândia.

Localizada no centro da cidade, na região das históricas estações da Luz e Julio Prestes, onde hoje também se encontram a Pinacoteca do Estado e a Sala São Paulo, o local é a mais nova e almejada menina dos olhos do setor imobiliário, verdadeiro mandante da Paulicéia e seus respectivos políticos.

Dessa forma, com vistas a dar vazão ao contestado projeto do prefeito Gilberto Kassab de revitalização da área, batizado de ‘Nova Luz’ e contestado pelos próprios moradores e comerciantes da área, o governo e a prefeitura de São Paulo deram início à operação “Sufoco”, sugestiva por si só, com vistas a combater o ostensivo tráfico e uso do crack, a droga mais consumida pelos miseráveis e moradores de rua, cujos efeitos são reconhecidamente os mais nefastos dentre todos os itens do varejo das drogas.

Aplaudida de pé pela mídia e seu público alienado, a operação conta apenas com a presença da Polícia Militar, que desde o início da última semana passou a contar com seu braço de elite, a Rota, no combate e dispersão dos usuários. No entanto, não há mais nada planejado seriamente no sentido de realmente extirpar essa chaga de nosso cotidiano.

Com o decorrer dos trabalhos, desde o início marcados pela violência e falta de bom senso dos PMs, descobriu-se que na verdade foi a corporação militar quem decidiu e deflagrou sozinha todo o plano. A idéia original previa, antes de tudo, a construção de um centro de assistência social, há cerca de um quilômetro da Cracolândia, habilitado a atender 1200 pessoas por dia. Depois, por volta de março, o braço militar do Estado seria acionado.

Dessa forma, o Ministério Público Estadual logo entrou em cena e qualificou como “desastrosa” a operação, de acordo com as palavras de alguns de seus promotores. Como não poderia deixar de ser, o secretário de segurança, Antonio Ferreira Pinto, rebateu a crítica e emendou com a acusação de que os promotores fazem “pirotecnia”, seguindo a lógica vigente de intolerância a todas as contestações sobre a truculência e ineficácia da PM, tal como se vê, por exemplo, na USP nos últimos meses.

"São Paulo é uma das (cidades) mais antigas no uso de crack, nossa Cracolândia é ‘original’, se comparada às outras que vêm surgindo. Na verdade São Paulo deveria estar pensando em estratégias e políticas públicas para replicar o resto do país, e não é o que vem acontecendo", afirma Bruno Ramos Gomes, do coletivo ‘Centro É De Lei’, que tem se debruçado sobre a questão do crack nos últimos tempos, em entrevista ao especial Nova Luz produzido pelo jornal Brasil de Fato.

Tal declaração serve para esclarecer a realidade nua e crua, de que a cidade negligencia completamente o tratamento humanizado de seus dependentes químicos. Quem caminha pela região, logo vê a exorbitante quantidade de policiais, a cavalo, moto, bicicleta, agrupados ao lado de viaturas, de modo a justificar inteiramente o nome da operação.

E, de fato, o plano tem surtido efeito, dentro de seus limitados propósitos. É notório que o número de viciados que perambulavam pela região diminuiu drasticamente, assim como o tráfico e consumo. No momento, os aturdidos dependentes circulam em pequenos e apressados grupos pelas calçadas da cidade, em caminhadas sem rumo que os levam aos mais diversos destinos, o que agora passa a incomodar a população de outras localidades.

Assim, a polícia começou a expandir levemente o acompanhamento dessas pessoas que só são lembradas pelo Estado para serem repelidas. Nas principais avenidas que cercam a região e conduzem a outros pontos da cidade, verifica-se claramente a presença de um maior contingente de policiais e viaturas circulando vagarosamente, de olho no movimento de “suspeitos” e nas direções que tomam. O objetivo, visível, é evitar a entrada em bairros mais abastados e a subseqüente histeria de seus moradores.

Com isso, e com um debate sempre empobrecido pela grande mídia, que só trata de espetacularizar a operação, raramente oferecendo uma visão mais humana dos dependentes, pouco se pensa sobre o que realmente fazer de efetivo para uma real solução do problema – vide a rede Record, cujo helicóptero se transformou no despertador oficial dos moradores do centro.

No mais, discute-se se a internação compulsória é uma alternativa válida, o que para muitos chega a ser inconstitucional, além de ineficaz, ou se meros albergues podem dar conta de ao menos tirá-los da visão dos transeuntes.

“Nos dias atuais, observa-se a implementação de diversos procedimentos descolados das diretrizes básicas de atenção aos usuários de álcool e outras drogas, que têm sido construídas e indiscutivelmente progredido, a partir dos trabalhos teórico-práticos desenvolvidos ao longo dos anos”, escreveu Fabiana Lustosa, psicóloga, no Portal Pró-Menino.

“Sob este ponto de vista, a reabilitação psicossocial e a reinserção do usuário apostam na potencialidade do território comunitário, valorizando-o no processo de saúde-doença em relação ao consumo de substâncias. Assim, tornou-se imperativo o incremento de ações extra-hospitalares, investindo nos conceitos de território e de rede para tecer o cuidado integral. Esta modalidade de cuidado vem de encontro ao que predomina no imaginário social, que tende a mitificar a internação, considerando-a como a única medida resolutiva no que tange aos usuários de drogas. Desta maneira, a hospitalização é utilizada de forma indiscriminada sem que haja uma avaliação adequada do caso”, completa Fabiana.

Tal idéia vai de encontro com as novas formas de tratamento de pessoas que sofrem de transtornos mentais, fora dos tradicionais manicômios, vistos como antros de morte e degradação. No entanto, em ambos os casos o governo tucano também mantém sua coerência, ignorando essas novas formas de tratamento e abusando das velhas práticas de proporcionar ainda mais “dor e sofrimento”, como bem declararam seus porta-vozes no início da operação.

Nesse sentido, vale lembrar o escândalo que causou a revelação de centenas de mortes nos manicômios do estado no ano passado, uma tendência que ainda não cessa, e pode ser explicada novamente pelos velhos interesses privados, neste caso dos donos de manicômios e hospitais psiquiátricos, em geral ligados politicamente ao tucanato.

Em ambos os casos, deixa-se de lado uma tentativa de verdadeiramente ressocializar essas pessoas, que continuam conhecendo apenas o braço repressor e desumano do Estado. Ao mesmo tempo em que os dependentes do crack vivem desterrados, sem lugar pra sequer dormir, salta aos olhos a enorme quantidade de prédios abandonados nas ruas da mesmíssima região.

Assim, fica mais que evidente os escusos e mesquinhos interesses políticos que movem Alckmin, Kassab e seus colegas. Pois se não, por que simplesmente não se começa a alojar os pobres usuários de crack em moradias que poderiam ser desapropriadas pelo Estado a qualquer momento com fins sociais? Por tabela, ocupando de forma digna o coração da cidade, tais pessoas ainda teriam acesso fácil aos centros de assistência médica e social e certamente mais condições de se reinserir rapidamente, na vida e no mercado de trabalho. Num centro que tem cerca de 200 mil apartamentos ociosos, por que é tão difícil promover essa fagulha de justiça?

Obviamente pelo fato de tais governos, especialmente os tucanos de São Paulo, estarem completamente seqüestrados pela especulação imobiliária, que os financia politicamente e em troca recebe sinal verde para fazer o que bem entender, não só no centro, mas também em qualquer área da cidade. Basta ver a absurda quantidade de prédios sendo levantados incessantemente aos quatro cantos, sem relação alguma com a correção de nosso estrondoso déficit habitacional.

"Se o projeto da Nova Luz for pra frente, vão desapropriar, demolir e os usuários vão continuar em situação de rua, fumando pedra, vendendo pedra e se prostituindo. Essa população vai acabar migrando para outras regiões, e não sei se vai continuar esse esforço tão grande da prefeitura em fazer coisas com eles, porque aí não vai estar mais influenciando o projeto urbanístico", adverte Bruno Ramos Gomes.

Além disso, a precipitação da operação tem tudo a ver com o fato de que o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, e o próprio governo federal, desde a era Lula, vinham tramando soluções de combate ao crack em São Paulo – e também nacionalmente. Basta ver que o Planalto pretende investir 4 bilhões de reais nessa questão até 2014. Antevendo a derrota política, a dupla demotucana resolveu apressar os planos e iniciar do jeito que fosse a “limpeza” da Nova Luz.

Não se trata de louvar o plano federal, que segundo críticos mais especializados tampouco contempla as melhores alternativas de tratamento e ressocialização de usuários, baseando-se em internações, até forçadas, para manter os dependentes longe das drogas a todo custo, sem, no entanto, oferecer garantias de longo prazo de que conseguirão se afastar desse vício destruidor e retomar uma vida razoavelmente normalizada.

De acordo com estudos dos próprios centros sociais que trabalham com dependentes, cerca de 60% dos 1700 viciados pesquisados retomaram o vício após receberem tratamento. Diante da conhecida força da droga, fica notório que carecemos de uma visão que vá além do mero tratamento médico e permita uma verdadeira recuperação das vítimas do crack, acompanhada de reais perspectivas de uma vida digna.

Por isso é tão chocante ver policiais preparados para os mais duros combates, de exuberante força física, se digladiando com famélicos e estropiados usuários de crack pelas madrugadas paulistanas, “expurgando o mal” na porrada. Como diz uma pichação da avenida São João, “não adianta maquiar, a Cracolândia anda”.

Diante dessa tragicomédia, a própria polícia deu um passo atrás nesta segunda semana de operação: agora, a ordem é relaxar a dispersão dos usuários, cujo trânsito já notou ser incontrolável, além da esterilidade em fazê-los apenas migrar para novos locais, uma vez que não se desmaterializarão com balas de borracha e cacetadas nas costas.

A dura verdade é que nada relacionado à tragédia do crack e da vida nas ruas poderá se modificar enquanto gestores como Alckimin e Kassab estiverem à frente da cidade, atrelados até a medula aos interesses especulativos da terra e combatentes ferozes de toda e qualquer humanização das relações sociais numa cidade tão carente de saúde, paz, harmonia, esperança e outros estados de espírito que sempre fazem parte de nossos votos de cada novo ano.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Dar ordem ao caos!


Constantemente vivemos mudanças em nossas vidas, nem todas são planejadas, desejadas e muito menos controláveis. Quando vemos, pronto! Já mudou. Isso não quer dizer que a gente deve aceitar nem rejeitar tudo o que está acontecendo, só precisamos reservar um tempo pra avaliar e decidir o que levar nas malas pra nova vida.
Em meu trabalho clínico tenho a oportunidade de perceber as pessoas e suas mudanças de um ponto de vista privilegiado e o objetivo de quem faz análise, tanto para o analista quanto pro analisante é esse mesmo, tentar entender o caos, pois dele nascem novas perspectivas.
Todo começo de ano assistimos as pessoas darem novos rumos e criarem suas promessas de ano novo.  Sugiro que antes disso, cada um de nós demos uma olhadinha naquela 1ª folha da agenda de 2011 e ver daquela lista o que ficou pra trás, o que ficou pendente e o que foi atingido. Não sou coaching, não estou falando de metas, estou tentando considerar o compromisso que tentamos firmar com nós mesmos e se somos capazes de cumpri-lo ou minimamente de lembrar que ele existe.
É através dos olhares que lançamos sobre nossas próprias impotências e fragilidades que organizamos nossas relações com o mundo. O fato de relevar minhas próprias inconstâncias não significa que automaticamente saia por aí “perdoando” as inconstâncias alheias, mas pelo menos posso ter mais tolerância para tentar entender esse movimento do outro.
Somos movidos por nossos desejos, muitos inconscientes, que nos faz sair do trilho e desejar outra e outra e outra coisa no meio do caminho que nem estávamos esperando, vale lembrar que para o Outro isso também pode ser assim e entender que algumas coisas são abandonadas nesse processo. Pode ser arrumar o guarda roupas, comprar decoração nova ou se afastar de alguns amigos, pois a nova rotina não abre tanto espaço pra se dedicar a eles e não tem maleiro em que caiba tanta gente! (nem seria justo deixa-los ali, deixo-os livre e quando os quiser de volta junte energias pra correr atrás)
Enfim creio que a minha tentativa de dar ordem ao caos não seja exatamente organizar as coisas, mas deixar o caos continuar, até que te leve a dúvidas, conflitos, perspectivas novas. Quando eu era adolescente meu quarto era totalmente desarrumado, minha mãe ficava nervosíssima com isso, mas eu me saia bem com um argumento irrefutável: “se tem bagunça, tem vida... se tudo tivesse muito arrumadinho significava que ninguém tinha passado por ali!”.
Claro que hoje o quarto é mais arrumado, a casa também, a rotina, a vida financeira (nem tanto), mas o caos dos sentimentos, dos desejos, do estica e puxa das relações ainda está ali e só será definitivamente arrumado quando eu estiver morta, completamente ausente, impossibilitada de alterar qualquer coisa. Enquanto isso, mantenho minha lista e meu caos! Feliz 2012... e que não me venham comentar o texto dizendo que ficou confuso, é disso que ele se trata oras!