sexta-feira, 29 de junho de 2012

Entre o domínio e o contorno parental


Em nossa sociedade atual, contemporânea vivemos a invenção da Infância e mais recentemente a supervalorização do período de maturação chamado de adolescência.
Alguns séculos atrás as crianças não existiam, eram considerados mini adultos, se vestiam como tal e não eram preservados em nenhum momento de alguma situação constrangedora ou superior ao seu estado de desenvolvimento. As relações sexuais entre os pais não eram privadas, já que todos dividiam os mesmos quartos, os falecimentos e lutos eram colocados de forma natural, explicações delicadas ou simplórias não existiam, enfim; não havia tanta preservação ou compreensão sobre o estado peculiar de desenvolvimento de uma criança.
Foi a partir da Revolução Industrial e da necessidade de se ampliar direitos em relações às mulheres e ao trabalho que surge a infância, criam-se escolas, definem-se períodos diferenciados de desenvolvimento e atenção dispensados a elas e com maior contingente urbano a estrutura doméstica passa a ter novos formatos, criando então a ideia de privacidade, individualidade, personalidade e outros conceitos que dão contorno ao que aquele pequeno sujeito virá a ser quando adulto.
O que passa por essa transformação contemporânea além dos benefícios dessa particularização do sujeito também é o conflito em que os pais de hoje são constantemente postos, diante de uma urgência de novos entendimentos que muitas vezes não é acompanhada culturalmente na mesma velocidade que a tecnologia chega. Pensando nisso, precisamos analisar nosso tempo, refletir sobre o quanto ficamos presos ou constrangidos em tentar dar um contorno aos nossos pequenos sujeitos, nossas crianças e adolescentes que cada vez mais nos colocam diante de desafios e surpresas, pois na geração anterior esse conflito não existia.
Para compreender melhor basta pensarmos nos resfriados que tínhamos quando criança; o remédio era xarope, chá, leite com açúcar queimado e cama, quando uma mãe de 3 filhos se deparava com 1 com catapora, logo tratava de dividir com os outros a mesma toalha, mesma colher de sopa, tudo o que fosse necessário para que os 3 ficassem doentes ao mesmo tempo e assim ela cuidar deles de uma vez só, sendo quem um irmão ficaria mais compreensivo com o outro se também estivesse em sofrimento. Não estou dizendo de 100 anos atrás, estou dizendo talvez nem de 30 anos atrás, isso era visto com naturalidade e educação domiciliar herdada! Hoje, na primeira crise de espirro além do Resfenol já pular pra fora da gaveta de remédios, marca-se o pediatra e reza pra não ter que deixa-lo faltar da aula pois a mãe tem q trabalhar. Essa é apenas uma comparação sobre a diferença sobre os cuidados, mas que também reflete a mudança sobre um comportamento geral da sociedade, onde todos tem que ser especialista em algo para nos livrarmos da responsabilidade compartilhada em família. O conhecimento letrado vale mais do que a sabedoria popular e isso traz consequência tais como a medicalização de todo sujeito, insegurança na postura dos pais perante uma educação mais rígida sobre as crianças e um medo constante de um adoecimento,  seja por medo de uma queixa de violência causada por vizinhos e outros mecanismos de defesa de direitos da criança e adolescente, ou até mesmo o medo ou uma sensação de que aquela relação entre pais e filhos está tão fragilizada que se o pai não der conta de satisfazer uma “urgência” real ou não o filho pode deixar de amá-lo, afinal de contas por trás disso existe o sentimento de culpa ou a consciência do quanto os pais cada vez mais estão ausentes em nome do padrão de vida desejado via TV, escola, amigos e etc.
O preço que se paga é que ao contrário de se criar um contorno sobre a criança, algo que o identifica com a família e assim ele pode assumir aquela herança como referência e como acolhimento sábio e afetuoso, acabam se criando domínios, disputas de poder entre pais e filhos, desde a hora do banho em que a criança vence pedindo ou enrolando por mais 5 minutos, ou a decisão sobre o que iremos jantar,  onde vamos passar as férias ou como é a casa onde iremos morar.
Para tentar lidar com essa culpa da ausência, ou sobre essa fragilidade no que é compreender ser pais nos tempos da internet, ECA, individualismos, Bullyng e outros padecimentos é preciso que os pais retomem as rédeas da casa. Existe uma expressão nada capitalista, nem tão pouco moderna, mas meramente eficiente: “ Não pergunte o que seu filho quer para o jantar enquanto ele não puder pagar a conta”. Isso não significa que você deve ignorar as preferencias de seu filho, mas diz com todas as letras quem tem os recursos para contornar, posicionar e oferecer o que naquele momento a vida está pedindo são os adultos; pois apesar de toda criança preferir macarrão com salsicha é no arroz com feijão que garantimos os nutrientes necessários para que ele se desenvolva sem ficar desperto e elétrico artificialmente a ponto de deixar os professores loucos e acabarem o rotulando como mais um hiperativo.
Os direitos das crianças e adolescentes foram criados não para eles ficarem mal criados, mas sim para que haja consciência de que no mínimo até os 18 anos eles não tem condições de definir o rumo da própria vida sozinhas, são os adultos, em primeiro lugar os pais os responsáveis diretos sobre as decisões. Os pais, separados ou não como casal, mas aliados, parceiros na educação dos filhos precisam dedicar suas angústias a si mesmos, se fortalecendo e se preparando para que na linha de frente em relação aos filhos possam estar seguros das decisões tomadas em dupla. A criança é o terceiro do casal, ela chegou depois, portanto deve respeitar e confiar na autoridade parental para aceitar em harmonia os rumos que a família precisa tomar, seja sobre condições financeiras (poder ou não dar o celular da moda), seja sobre os comportamentos em convívio (jantar na cozinha, sala ou no quarto), entre outros. Para tanto, os pais devem se lembrar que são os adultos, que conhecem as crianças desde o começo, que se essa criança aprendeu a lidar com frustrações será um adolescente potente, que se essa criança for superprotegida apenas para os pais se livrarem da culpa ou para realizarem nos filhos as ausências que tiveram na infância o resultado será o fracasso, não porque esse adolescente irão adoecer, mas porque ele vai continuar disputando o domínio com os pais e com mais energia, chantagens emocionais ou artimanhas típicas da idade em que o mundo apresenta o tempo todo novidades e traquejos para o isolamento, exclusão do outro e desvalorização da educação em nome do que se pode consumir com urgência.
O desejo das crianças e adolescentes precisa ser contornado pelo desejo dos pais, não dominados por ele. Nos tempos de consumo de individualidade e descartáveis é preciso aprender a reciclar valores, retomar antigas estratégias e recursos emocionais para mostrar aos filhos que em casa os pais não mandam porque mandam, os pais orientam porque sabe que isso é realmente o melhor e confia que o filho é capaz de herdar o mesmo bom senso, afinal numa família não é preciso ter o mesmo sangue para se ter a mesma cultura.

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