Essa semana a Psicologia no Brasil completou 50 anos e
apesar de certa idade, a construção de sua conduta e movimento não para.
Para muitos, ainda é um campo nebuloso, onde o que se
entende daquilo que escuta é o lugar do louco, do problemático, do
diagnosticado ou do incompetente sobre suas fraquezas; mas aqueles que se
aproximam acabam captando 2 compreensões de extrema relevância: área de atuação
e abordagem nos diversos campos da psicologia.
Como área de atuação pode dizer das abrangências e suas
especificidades, das mais clássicas (clínica, social, educacional,
organizacional) às contemporâneas e suas subdivisões (hospitalar, coaching,
política, teológica, alternativa, etc). Cada uma das palavras se desdobrando
conforme sua abordagem, que no sentido da palavra traz a questão de como se
toca, se chega, se aproxima do seu sujeito e como cria através de um olhar
específico um contorno para compreende-lo.
Na área clínica é comum ouvir pessoas perguntando : mas tal
pessoa é psicanalista ou comportamental? Qual tipo de terapia me ajuda mais
rápido? Saúde Mental é aquela de loucos né, pra quem toma remédio? Essa coisa
de bioenergética vem dos “bichos grilos”... e assim vão se criando diversos discursos
sobre a psicologia. Mesmo que muitas vezes distantes da proposta da área e
abordagem, a vantagem é que hoje em dia o preconceito sobre a necessidade de um
psicólogo, ou sobre um campo de sua atuação vem diminuindo, pois cada vez que
se fala sobre algo, bem ou mal, abre-se uma janela de comunicação.
E é nesse ponto que vem a direção de minha reflexão sobre o
compromisso ético do profissional psicólogo, seja em qualquer área, de qualquer
abordagem, como disse Silvia Lane “toda psicologia é social” e essa afirmação ecoa
no fato de que o psicólogo precisa manter seu olhar atento ao cenário, ao
contexto, à repercussão do tempo sobre a “questão” daquele sujeito que diz o
que diz naquele momento.
O psicólogo tem a responsabilidade de “escapar” do lugar do
suposto saber. Quando alguém o procura atrás de respostas ou diretivas sobre
ele mesmo, o psicólogo propicia ao “cliente”, “objeto de estudo” , “paciente”,
“aluno”, a “instituição”; a possibilidade de se posicionar enquanto sujeito,
enquanto aquele que para se conhecer precisa perguntar de si mesmo e duvidar de
suas certezas prontas, construídas dentro de sua história as vezes sem
reflexão, por mera reprodução, aceitação
ou defesa.
O bom psicólogo não é apenas aquele que escuta o sujeito que
quer falar, também é aquele que olha o sujeito que desapareceu em sua fala, que
está silenciado pelo contexto que o segmentou num lugar em que ele mesmo não
existe enquanto agente, mas como subordinado aquele papel. Bons exemplos vem
sobre a questão do aumento da medicalização de crianças com hiperatividade, os usuários
de drogas, os comprometidos psiquiatricamente; são pessoas que não tem condição
de questionar muito bem o lugar onde a sociedade os destina, porem vivemos num
tempo em que todos procuram em si um diagnóstico, uma pílula que amenize o
sentir da vida, à esses o psicólogo também direciona um olhar cuidadoso e se
pergunta “porque estamos tão incapazes de lidar com nossos lutos? Porque não
suportamos mais nada que nos remeta um sofrimento? Quando foi que compramos a
ideia de felicidade imediata?” .
O compromisso do psicólogo está em procurar esse sujeito,
que está cada vez mais escondido, “adaptado”, amortecido ou isolado de sua
essência; lembrando a ele um lugar em que é possível haver conflito sem
precisar produzir sintomas. Provocar mudanças ou rompimentos que causam
angústia, exatamente porque a exigência vem de negar a angustia que é inerente
ao humano. Talvez a delícia esteja
nisso: lembrar o humano de que se é humano, que não se está pronto, de que não
se é limitado ou fadado aquilo que se julga naquele momento, que tudo é
passível de dúvida e que isso pode ser encarado de forma saudável desde que não
sufoque a sua relação com o outro, a fim de satisfazer e atingir objetivos
inventados.
Nenhum texto será capaz de exprimir as atribuições do
psicólogo, mas esse talvez possa lembrar que o psicólogo não julga, não prevê,
não impõe, não ensina, não se aprisiona
numa postura moral; ao contrario, a psicologia vem abrir portas em que se pode
se despir de preconceitos, de pré julgamentos, pré potências para construir
outras coisas e mesmo assim, nem essas terão a pretensão de serem
insubstituíveis, pois ao humano cabe estar em constante movimento.
Sendo assim, parabenizo a todos os profissionais de
psicologia que se amparam antes no seu compromisso ético, em seus recursos
teóricos e nos respaldos que a profissão nos dá do que aqueles que confundem
sua prática com a disseminação de seus valores morais e fazem dela palco de
suas vaidades.

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