Em nossa sociedade atual, contemporânea vivemos a invenção
da Infância e mais recentemente a supervalorização do período de maturação
chamado de adolescência.
Alguns séculos atrás as crianças não existiam, eram
considerados mini adultos, se vestiam como tal e não eram preservados em nenhum
momento de alguma situação constrangedora ou superior ao seu estado de
desenvolvimento. As relações sexuais entre os pais não eram privadas, já que
todos dividiam os mesmos quartos, os falecimentos e lutos eram colocados de
forma natural, explicações delicadas ou simplórias não existiam, enfim; não
havia tanta preservação ou compreensão sobre o estado peculiar de desenvolvimento
de uma criança.
Foi a partir da Revolução Industrial e da necessidade de se
ampliar direitos em relações às mulheres e ao trabalho que surge a infância,
criam-se escolas, definem-se períodos diferenciados de desenvolvimento e
atenção dispensados a elas e com maior contingente urbano a estrutura doméstica
passa a ter novos formatos, criando então a ideia de privacidade,
individualidade, personalidade e outros conceitos que dão contorno ao que
aquele pequeno sujeito virá a ser quando adulto.
O que passa por essa transformação contemporânea além dos
benefícios dessa particularização do sujeito também é o conflito em que os pais
de hoje são constantemente postos, diante de uma urgência de novos
entendimentos que muitas vezes não é acompanhada culturalmente na mesma
velocidade que a tecnologia chega. Pensando nisso, precisamos analisar nosso
tempo, refletir sobre o quanto ficamos presos ou constrangidos em tentar dar um
contorno aos nossos pequenos sujeitos, nossas crianças e adolescentes que cada
vez mais nos colocam diante de desafios e surpresas, pois na geração anterior
esse conflito não existia.
Para compreender melhor basta pensarmos nos resfriados que
tínhamos quando criança; o remédio era xarope, chá, leite com açúcar queimado e
cama, quando uma mãe de 3 filhos se deparava com 1 com catapora, logo tratava
de dividir com os outros a mesma toalha, mesma colher de sopa, tudo o que fosse
necessário para que os 3 ficassem doentes ao mesmo tempo e assim ela cuidar
deles de uma vez só, sendo quem um irmão ficaria mais compreensivo com o outro
se também estivesse em sofrimento. Não estou dizendo de 100 anos atrás, estou
dizendo talvez nem de 30 anos atrás, isso era visto com naturalidade e educação
domiciliar herdada! Hoje, na primeira crise de espirro além do Resfenol já
pular pra fora da gaveta de remédios, marca-se o pediatra e reza pra não ter
que deixa-lo faltar da aula pois a mãe tem q trabalhar. Essa é apenas uma
comparação sobre a diferença sobre os cuidados, mas que também reflete a
mudança sobre um comportamento geral da sociedade, onde todos tem que ser
especialista em algo para nos livrarmos da responsabilidade compartilhada em
família. O conhecimento letrado vale mais do que a sabedoria popular e isso
traz consequência tais como a medicalização de todo sujeito, insegurança na
postura dos pais perante uma educação mais rígida sobre as crianças e um medo
constante de um adoecimento, seja por
medo de uma queixa de violência causada por vizinhos e outros mecanismos de defesa
de direitos da criança e adolescente, ou até mesmo o medo ou uma sensação de
que aquela relação entre pais e filhos está tão fragilizada que se o pai não
der conta de satisfazer uma “urgência” real ou não o filho pode deixar de
amá-lo, afinal de contas por trás disso existe o sentimento de culpa ou a
consciência do quanto os pais cada vez mais estão ausentes em nome do padrão de
vida desejado via TV, escola, amigos e etc.
O preço que se paga é que ao contrário de se criar um
contorno sobre a criança, algo que o identifica com a família e assim ele pode
assumir aquela herança como referência e como acolhimento sábio e afetuoso,
acabam se criando domínios, disputas de poder entre pais e filhos, desde a hora
do banho em que a criança vence pedindo ou enrolando por mais 5 minutos, ou a
decisão sobre o que iremos jantar, onde
vamos passar as férias ou como é a casa onde iremos morar.
Para tentar lidar com essa culpa da ausência, ou sobre essa
fragilidade no que é compreender ser pais nos tempos da internet, ECA,
individualismos, Bullyng e outros padecimentos é preciso que os pais retomem as
rédeas da casa. Existe uma expressão nada capitalista, nem tão pouco moderna,
mas meramente eficiente: “ Não pergunte o que seu filho quer para o jantar
enquanto ele não puder pagar a conta”. Isso não significa que você deve ignorar
as preferencias de seu filho, mas diz com todas as letras quem tem os recursos
para contornar, posicionar e oferecer o que naquele momento a vida está pedindo
são os adultos; pois apesar de toda criança preferir macarrão com salsicha é no
arroz com feijão que garantimos os nutrientes necessários para que ele se
desenvolva sem ficar desperto e elétrico artificialmente a ponto de deixar os
professores loucos e acabarem o rotulando como mais um hiperativo.
Os direitos das crianças e adolescentes foram criados não
para eles ficarem mal criados, mas sim para que haja consciência de que no
mínimo até os 18 anos eles não tem condições de definir o rumo da própria vida
sozinhas, são os adultos, em primeiro lugar os pais os responsáveis diretos
sobre as decisões. Os pais, separados ou não como casal, mas aliados, parceiros
na educação dos filhos precisam dedicar suas angústias a si mesmos, se
fortalecendo e se preparando para que na linha de frente em relação aos filhos
possam estar seguros das decisões tomadas em dupla. A criança é o terceiro do
casal, ela chegou depois, portanto deve respeitar e confiar na autoridade
parental para aceitar em harmonia os rumos que a família precisa tomar, seja
sobre condições financeiras (poder ou não dar o celular da moda), seja sobre os
comportamentos em convívio (jantar na cozinha, sala ou no quarto), entre
outros. Para tanto, os pais devem se lembrar que são os adultos, que conhecem
as crianças desde o começo, que se essa criança aprendeu a lidar com frustrações
será um adolescente potente, que se essa criança for superprotegida apenas para
os pais se livrarem da culpa ou para realizarem nos filhos as ausências que
tiveram na infância o resultado será o fracasso, não porque esse adolescente irão
adoecer, mas porque ele vai continuar disputando o domínio com os pais e com
mais energia, chantagens emocionais ou artimanhas típicas da idade em que o
mundo apresenta o tempo todo novidades e traquejos para o isolamento, exclusão
do outro e desvalorização da educação em nome do que se pode consumir com
urgência.
O desejo das crianças e adolescentes precisa ser contornado
pelo desejo dos pais, não dominados por ele. Nos tempos de consumo de
individualidade e descartáveis é preciso aprender a reciclar valores, retomar
antigas estratégias e recursos emocionais para mostrar aos filhos que em casa
os pais não mandam porque mandam, os pais orientam porque sabe que isso é
realmente o melhor e confia que o filho é capaz de herdar o mesmo bom senso,
afinal numa família não é preciso ter o mesmo sangue para se ter a mesma
cultura.


