Talvez o fato de expressar minhas opiniões vá me dar a sensação de me sentir exposta, mas revisando o sentido da palavra, exposição parece estar ligada a arte, e outro dia, ouvi que aquele que é capaz de contar sobre seus próprios aprendizados é generoso, e talvez por isso eu esteja me aventurando. Não pelo título, mas pela possibilidade da troca!Com minha iniciante experiência em psicologia clínica tenho prestado muito mais atenção no que escuto entre as pessoas por ai, dentro do ônibus, na padaria, nos bares, caminhando na rua. É desse movimento que resolvi fazer um olhar para o sujeito criando deixas descompromissadas para raciocínio.
O que sempre me vem como exemplo é na “pureza e esperteza” das crianças, até nas que cruzo apenas uma vez na vida! Quantas vezes não ouvimos em conversas “sábias” entre adultos com crianças por perto: “pode falar, ele não tá entendo nada!”. Nossa, quanto trabalho essa criança vai ter pra agora fingir que não estava entendendo nada?!
Certa vez no ônibus de manhã, com muitas mães levando seus filhos na creche, um menino de uns 4 anos no máximo virou contente pra mãe e disse: “meu amigo está aqui!!!” E a mãe: “é? Quem é ele?”. O garoto sem o menor problema: “aquele preto ali no banco da frente!” E a mãe ruborizada conserta o menino com um apertão: “não é assim que se diz meu filho, ele é moreninho!!”
Claro que no mesmo momento pensei: o que muda no afeto da criança a cor? O que de fato o que ele estava dividindo com a mãe era: “alguém que eu gosto e faz parte do meu grupo de pertença está aqui, que bom!!!”
Nós adultos, com nosso senso do politicamente correto, do anti preconceito, acabamos embutindo nas próximas gerações o medo de dizer que enquanto somos crianças, não faz diferença nossa cor. Só aprendemos isso depois!
Tanto é recorrente o fato, que no exato momento em que escrevo esse texto, escuto o filho do vizinho com a mãe: “mãe, o Michael Jackson morreu de branco!”, como não ouvi nada da mãe, apenas imagino que ela fez cara de interrogação e ele continuou: “ele não era preto quando era criança? Daí foi ficando branco, isso era doença, ele morreu porque ficou branco!”. Com a despreocupação de ser apenas uma ouvinte e não ter de dar nenhuma resposta a criança, vou me dar o direito despretensioso de interpretar que esse garoto estava fazendo a seguinte descoberta: ele morreu porque sua identidade se transformou tanto que ele adoeceu! Claro que parece muito superficial, mas qualquer um que pensar num segundo a mais sobre isso vai ver que faz muito sentido!
Não estou querendo dar nenhuma dica do que é certo ou errado ao falar sobre questões raciais com os filhos, pelo contrário, estou dizendo que muitas vezes nos preocupamos tanto em educar que nos esquecemos de compartilhar, no caso daquele menininho do ônibus, a alegria simplesmente foi interrompida pelo grande apertão de senso histórico.
A ironia é que o mesmo adulto que reprime as expressões “ingênuas” das crianças ensina nas aulas de arte que não existe mais a cor de rosa da geração anos 80, aquele nosso rosa agora chama COR DE PELE. Isso: cor de pele. Agora eu pergunto: cor da pele de quem? Dá uma passada desse lápis perto do braço da maioria dos aluninhos, vai ser rosa? Acho que não. Mas o rosa agora só vale Pink, com toda justificativa dos professores de artes que vão explicar que essa cor de pele vem da origem da história da arte com influência européia e etc. Mesmo assim, pras crianças a referência deveria ser cor de lápis, porque cor da pele cada um tem a sua não é mesmo?
Nem vou me alongar muito nessas questões, prefiro apenas deixar pontos pra você leitor pensar... É claro que essa mãe não é culpada de nada, nem emite nenhum julgamento sobre o fato, apenas o usei pra exemplificar algumas coisas que vem passando tão despercebidas no nosso dia a dia que pode ser que lá na frente isso esbarre em alguma outra coisa que sabemos bem o que é: hipocrisia! Agregar valor ao outro não pelo afeto,mas por obrigação.
Nem vou me alongar muito nessas questões, prefiro apenas deixar pontos pra você leitor pensar... É claro que essa mãe não é culpada de nada, nem emite nenhum julgamento sobre o fato, apenas o usei pra exemplificar algumas coisas que vem passando tão despercebidas no nosso dia a dia que pode ser que lá na frente isso esbarre em alguma outra coisa que sabemos bem o que é: hipocrisia! Agregar valor ao outro não pelo afeto,mas por obrigação.
Não custa ouvir (des)atentamente pra depois pensarmos no que estamos (re)produzindo em nossas próximas gerações, a mesma geração a que delegamos a responsabilidade de salvar o planeta, de mudar o sistema, de renovar nossas impressões sobre o mundo. Mas peraí, lembra que nós a “educamos” pensando que elas não estavam entendendo nada?
Oi Lú, parabéns pela iniciativa.Seja bemvinda!
ResponderExcluirTem uma música linda do André Abujamra que fala
extamente sobre isso.O nome da música é: Alma não tem cor
Vale a pena conferir com o Zeca Baleiro interpretantando maravilhosamente.Aqui está a letra pra cantar junto...rs
http://letras.terra.com.br/zeca-baleiro/1319634/