terça-feira, 30 de novembro de 2010

É fato fofo 2!

Hoje uma criança estava com um caderno onde mostrava o mapa da América Latina, daí me perguntou:
"onde a gente mora?" e apontei o Brasil no mapa, ele continuou... "e onde fica o mar?" e eu "no azul".
Atento ele refaz a pergunta "a gente mora aqui?". Eu "sim" já mostrando Sao Paulo.
Daí ele me quebra "e cabe tanta gente só aqui" como se de fato coubessemos no pedaço de mapa que ele apontava! rsrsrs

sábado, 27 de novembro de 2010

É fato fofo!

Pra variar eu ando na rua com olhar e ouvidos atentos as conversas de crianças, não vou dizer infantis porque daí posso passar a reparar em algumas briguinhas de namorados...
Então observe essa:
Mae e filho de uns 5 anos, indo a algum lugar e o filho diz: mae é naquela casa depois da árvore ne?
A mae: é sim. Veja como você tem boa memória!
e o filho: é que meu cérebro é mais novinho...que fofinho!!! rsrsr

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

À Dois!

Algo que venho observando com muito mais carinho ultimamente é a necessidade do ser humano de viver em grupo. Ao mesmo tempo, em grupo a sensação de segurança aumenta, várias vezes diluindo também a noção de responsabilidade individual sobre os atos coletivos.
Digo isso ao olhar esses ataques no Rio de Janeiro, uma verdadeira brincadeira de Polícia e Bandido, mas sem graça nenhuma! Ainda tem os últimos ataques de homofóbicos a homossexuais nas ruas de São Paulo, as brigas entre torcidas, os arrastões, entre outras coisas que enquanto estamos em maior número acabamos fazendo, por nos sentirmos “mascarados” pelos outros comparsas.Quantas são as fofocas que fazemos entre amigos daqueles amigo ausentes no momento, só porque as vezes é difícil falar de nós mesmos, como se pensássemos que somos chatos, pesados, desinteressantes ou qualquer coisa do tipo.
Esse mundo é tão vasto e a repercussão da forma como atuamos nele tão consistente, que cada vez mais valorizo a relação que se tem a dois.
Não digo isso sobre a formação de casais, digo a respeito das relações. Tenho certeza que por muitas vezes estamos inseguros em relação a alguém que acabamos perguntando a outro alguém o que ele acha. Pode parecer piegas dizer que precisamos ouvir mais a nós mesmos e nos amparar em nossas capacidades. Digo isso porque ando descobrindo, as duras penas ou não, que numa relação só cabe 2.
Toda relação é de 2, mesmo quando se refere a você e sua amiga, que também é amiga daquela outra em comum mas que são completamente diferentes, lhe servem, lhe aconselham, lhe acompanham em momentos totalmente diferentes,  apesar de em várias 6as feiras ou sábado a noite, todas estarem na mesma mesa, ou no mesmo bar que seja!
O que um pensa do outro, só serve a um e ao outro, perguntar ao terceiro é quase colocar em risco o que você sente para racionalizar uma relação que deve ser baseada no afeto. Medo de se enganar? De se decepcionar? Procurando garantias a partir do olhar do outro? Oras, se o olhar é do outro, é outro! Passa pelos afetos do outro e os atravessamentos do outro com aquele, ou seja, não misture os sentimentos, mantenha o papo reto como diz a gíria.
Então para ser bem direta quero agradecer cada um dos meus amigos e dizer que os amo e os aceito do jeitinho que são, e uns não precisam necessariamente ser amigos uns dos outros pra dar liga no meu respeito e admiração!
(hoje vou citar aqueles que foram mais importantes na inauguração da sala nova tá? Qdo surgir outra oportunidade eu falo dos outros e dos outros e dos outros...)
MUITO OBRIGADA : Ligia – minha Irma, minha pai, minha patrocinadora; Bruna e Camiz – minhas novas e velhas parceirinhas; Chris Lemos – pela motivação, incentivo e O PRESENTE mais lindo!,Renata e Bene- por serem minhas postiças;Alberto Guerreiro – por me ensinar a dizer SIM pra mim mesma;  Caio e Sil- por crerem sorrindo; Gisele- por me descobrir clinica; Murf- pelo acolhimento;  Lídi – por me incluir; Samuel – por me deixar ser o inferno!;Aranha e Lia- pelas paredes,Camiz Zaia- pela escuta,Cris CNC- por me dar 80 anos!;Marília- por ser a favorita e permitir construir um NOSSA CASA e tantos outros que em algum momento me disseram “nossa! Que bom! Parabéns! Vai dar certo! Você merece!”
Isso ae galera! O próximo passo foi dado, é mais um dos vários passos importantes que ainda daremos juntos! Perto ou não!MUITO OBRIGADA!

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Uma História de Borboletas - Caio Fernando Abreu

Porque quando se é branco como o fênix branco
e os outros são pretos, os inimigos não faltam.
Antonin Artaud,
citado por Anais Nin, em
"Je suis le plus malade des surréalistes"
André enlouqueceu ontem à tarde. Devo dizer que também acho um pouco arrogante de minha parte dizer isso assim ― enlouqueceu , como se estivesse perfeitamente seguro não só da minha própria sanidade mas também da minha capacidade de julgar a sanidade alheia. Como dizer, então? Talvez: André começou a comportar-se de maneira estranha, por exemplo? ou: André estava um tanto desorganizado, ou ainda: André parecia muito necessitado de repouso. Seja como for, depois de algum tempo, e aos poucos, tão lentamente que apenas ontem à tarde resolvi tomar essa providência, André ― desculpem a minha audácia ou arrogância ou empáfia ou como queiram chamá-la, enfim: André enlouqueceu completamente. Pensei em levá-lo para uma clínica, lembrava vagamente de ter visto no cinema ou na televisão um lugar cheio de verde e pessoas muito calmas, distantes e um pouco pálidas, com o olhar fora do mundo, lendo ou recortando figurinhas, cercadas por enfermeiras simpáticas, prestativas. Achei que André seria feliz lá. E devo dizer ainda que gostaria de vê-lo feliz, apesar de tudo o que me fez sofrer nos últimos tempos. Mas bastou uma olhada no talão de cheques para concluir que não seria possível.
Então optei pelo hospício. Sei, parece um pouco duro dizer isso assim, desta maneira tão seca: “então-optei-pelo-hospício”. As palavras são muito traiçoeiras. Para dizer a verdade, não optei propriamente Apenas: 1º) eu tinha pouquíssimo dinheiro e André menos ainda, isto é,
nada, pois deixara de trabalhar desde que as borboletas começaram a nascer entre seus cabelos; 2º) uma clínica custa dinheiro e um hospício é de graça. Além disso, esses lugares como aquele que vi no cinema ou na televisão ficam muito retirados ― na Suíça, acho ―, e eu não poderia visitá-lo com tanta freqüência como gostaria. O hospício fica aqui perto. Então, depois desses esclarecimentos, repito: optei pelo hospício.
André não opôs resistência nenhuma. Às vezes chego a pensar que ele sempre soube que, de uma forma ou outra, fatalmente acabaria assim. Portanto, coloquei-o num táxi, depois desembarcamos, atravessamos o pátio e, na portaria, o médico de plantão nem sequer fez muitas perguntas. Apenas nome, endereço, idade, se já tinha estado lá antes, essas coisas ― ele não dizia nada e eu precisei ir respondendo, como se o louco fosse eu e não ele. Ah: nem por um minuto o médico duvidou da minha palavra. Pensei até que, se André não estivesse realmente louco e eu dissesse que sim, bastaria isso para que ficasse por lá durante muito tempo. Mas a cara dele não enganava ninguém ― sem se mover, sem dizer nada, aqueles olhos parados, o cabelo todo em desordem.
Quando dois enfermeiros iam levá-lo para dentro eu quis dizer mais alguma coisa, mas não consegui. Ele ficou ali na minha frente, me olhando. Não me olhando propriamente, havia muito tempo não olhava mais para nada ― seus olhos pareciam voltados para dentro, ou então era como se transpassassem as pessoas ou os objetos para ver, lá no fundo deles, uma coisa que nem eles próprios sabiam de si mesmos. Eu me sentia mal com esse olhar, porque era um olhar muito... muito sábio, para ser franco. Completamente insano, mas extremamente sábio. E não é nada agradável ter em cima de você, o tempo todo, na sua própria casa, um olhar desses, assim trans-in-lúcido. Mas de repente seus olhos pareceram piscar, mas não devem ter piscado ― devo esclarecer que, para mim, piscar é uma espécie de vírgula que os olhos fazem quando querem mudar de assunto. Sem piscar, então, os olhos dele piscaram por um momento e voltaram daquele mundo para onde André se havia mudado sem deixar endereço. E me olharam os olhos dele. Não para uma coisa minha que nem eu mesmo via, nem através de mim, mas para mim mesmo fisicamente, quero dizer: para este par de órgãos gelatinosos situados entre a testa e o nariz ― meus olhos, para ser mais objetivo.
André olhou bem nos meus olhos, como havia muito não fazia, e fiquei surpreso e tive vontade de dizer ao médico de plantão que era tudo um engano, que André estava muito bem, pois se até me olhava nos olhos como se me visse, pois se recuperara aquela expressão atenta e quase amiga do André que eu conhecia e que morava comigo, como se me compreendesse e tivesse qualquer coisa assim como uma vontade de que tudo desse certo para mim, sem nenhuma mágoa de que eu o tivesse levado para lá. Como se me perdoasse, porque a culpa não era minha, que estava lúcido, nem tampouco dele, que enlouquecera. Quis levá-lo de volta comigo para casa, despi-lo e lambê-lo como fazia antigamente, mas havia aquele monte de papéis assinados e cheios de x nos quadradinhos onde estava escrito solteiro, masculino, branco, coisas assim, os enfermeiros esperando ali do lado, já meio impacientes ― tudo isso me passou pela cabeça enquanto o olhar de André pousava sobre mim e sua voz dizia:
 ― Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais.
Tao Te-King. Lao-Tse.
Então vim embora. Os enfermeiros seguraram seus braços e o levaram para dentro. Havia alguns outros loucos espiando pela janela. Eram feios, sujos, alguns desdentados, as roupas listradinhas, encardidas, fedendo ― e eu tive medo de um dia voltar para encontrar André assim como eles: feio, sujo, desdentado, a roupa listradinha, encardida e fedendo. Pensei que o médico ia colocar a mão no meu ombro para depois dizer coragem, meu velho, como tenho visto no cinema. Mas ele não fez nada disso. Baixou a cabeça sobre o monte de papéis como se eu já não estivesse ali, dei meia-volta sem dizer nada do que eu queria dizer ― que cuidassem bem dele, que não o deixassem subir no telhado, recortar figurinhas de papel o dia inteiro ou retirar borboletas do meio dos cabelos como costumava fazer. Atravessei
devagar o pátio cheio de loucos tristes, hesitei no portão de ferro, depois resolvi voltar a pé para casa.

Era de tardezinha, estava horrível na rua, com todos aqueles automóveis, aquelas pessoas desvairadas, as calçadas cheias de merda e lixo, eu me sentia mal e muito culpado. Quis conversar com alguém, mas me afastara tanto de todos depois que André enlouquecera, e aque-le olhar dele estava me rasgando por dentro, eu tinha a impressão de que o meu próprio olhar tinha se tornado como o dele, e de repente já não era apenas uma impressão. Quando percebi, estava olhando para as pessoas como se soubesse alguma coisa delas que nem elas mesmas sabiam. Ou então como se as transpassasse. Eram bichos brancos e sujos. Quando as transpassava, via o que tinha sido antes delas ― e o que tinha sido antes delas era uma coisa sem cor nem forma, eu podia deixar meus olhos descansarem lá porque eles não precisavam preocupar-se em dar nome ou cor ou jeito a nenhuma coisa ― era um branco liso e calmo. Mas esse branco liso e calmo me assustava e, quando tentava voltar atrás, começava a ver nas pessoas o que elas não sabiam de si mesmas, e isso era ainda mais terrível. O que elas não sabiam de si era tão assustador que me sentia como se tivesse violado uma sepultura fechada havia vários séculos. A maldição cairia sobre mim: ninguém me perdoaria jamais se soubesse que eu ousara.
Mas alguma coisa em mim era mais forte que eu, e não conseguia evitar de ver e sentir atrás e além dos sujos bichos brancos, então soube que todos eles na rua e na cidade e no país e no mundo inteiro sabiam que eu estava vendo exatamente daquela maneira, e de repente também já não era mais possível fingir nem fugir nem pedir perdão ou tentar voltar ao olhar anterior ― e tive certeza de que eles queriam vingança, e no momento em que tive certeza disso, comecei a caminhar mais depressa para escapar, e Deus, Deus estava do meu lado: na esquina havia um ponto de táxi, subi num, mandei tocar em frente, me joguei contra o banco, fechei os olhos, respirei fundo, enxuguei na camisa as palmas visguentas das mãos. Depois abri os olhos para observar o motorista (prudentemente, é claro). Ele me vigiava pelo
espelho retrovisor. Quando percebeu que eu percebia, desviou os olhos e ligou o rádio. No rádio, uma voz disse assim:
Senhoras e senhores, são seis horas da tarde. Apertem os cintos de segurança e preparem suas mentes para a decolagem. Partiremos em breve para uma longa viagem sem volta. Atenção, vamos começar a contagem regressiva: dez-nove-oito-sete-seis-cinco... Antes que dissesse quatro, soube que o motorista era um deles. Mandei-o parar, paguei e desci. Não sei como, mas estava justamente em frente à minha casa. Entrei, acendi a luz da sala, sentei no sofá.
A casa quieta sem André. Mesmo com ele ali dentro, nos últimos tempos a casa era sempre quieta: permanecia em seu quarto, recortando figurinhas de papel ou encostado na parede, os olhos olhando daquele jeito, ou então em frente ao espelho, procurando as borboletas que nasciam entre seus cabelos. Primeiro remexia neles, afastava as mechas, depois localizava a borboleta, exatamente como um piolho. Num gesto delicado, apanhava-a pelas asas, entre o polegar e o indicador, e jogava-a pela janela. Essa era das azuis- costumava dizer, ou essa era das amarelas ou qualquer outra cor. Em seguida saía para o telhado e ficava repetindo uma porção de coisas que eu não entendia. De vez em quando aparecia uma borboleta negra. Então tinha violentas crises, assustava-se, chorava, quebrava coisas, acusava-me. Foi na última borboleta negra que resolvi levá-lo para o tal lugar verde e, mais tarde, para o hospício mesmo. Ele quebrou todos os móveis do quarto, depois tentou morder-me, dizendo que a culpa era minha, que era eu quem colocava as borboletas negras entre seus cabelos, enquanto dormia. Não era verdade. Enquanto dormia, eu às vezes me aproximava para observá-lo. Gostava de vê-lo assim, esquecido, os pêlos claros do peito subindo e descendo sobre o coração. Era quase como o André que eu conhecera antes, aquele que mordia meu pescoço com fúria nas noites suadas de antigamente. Uma vez cheguei a passar os dedos nos seus cabelos. Ele despertou bruscamente e me olhou horrorizado, segurou meu pulso com força e disse que agora eu não poderia mais fingir que não era eu, que tinha me surpreendido no momento exato da
traição. Era assim, havia muito tempo, eu estava fatigado e não compreendia mais.
Mas agora a casa estava sem André. Fui até o banheiro atulhado de roupas sujas, a torneira pingando, a cozinha com a pia transbordando pratos e panelas de muitas semanas, a janela de cortinas empoeiradas e o cheiro adocicado do lixo pelos cantos, depois resolvi tomar coragem e ir até o quarto dele. André não estava lá, claro. Apenas as revistas espalhadas pelo chão, a tesoura, as figurinhas entre os cacos dos móveis quebrados. Apanhei a tesoura e comecei a recortar algumas figurinhas. Inventava histórias enquanto recortava, dava-lhes profissões, passados, presentes, futuros era mais difícil, mas dava-lhes também dores e alguns sonhos. Foi então que senti qualquer coisa como uma comichão entre os cabelos, como se algo brotasse de dentro do meu cérebro e furasse as paredes do crânio para misturar-se com os cabelos. Aproximei-me do espelho, procurei. Era uma borboleta. Das azuis, verifiquei com alegria. Segurei-a entre o polegar e o indicador e soltei-a pela janela. Esvoaçou por alguns segundos, numa hesitação perfeitamente natural, já que nunca antes em sua vida estivera sobre um telhado. Quando percebi isso, subi na janela e alcancei as telhas para aconselhá-la:
― É assim mesmo ― eu disse. ― O mundo fora de minha cabeça tem janelas, telhados, nuvens, e aqueles bichos brancos lá embaixo. Sobre eles não te detenhas demasiado, pois correrás o risco de transpassá-los com o olhar ou ver neles o que eles próprios não vêem, e isso seria tão perigoso para ti quanto para mim violar sepulcros seculares, mas, sendo uma borboleta, não será muito difícil evitá-lo: bastará esvoaçar sobre as cabeças, nunca pousar nelas, pois pousando correrás o risco de ser novamente envolvida pelos cabelos e reabsorvida pelos cérebros pantanosos e, se isso for inevitável, por descuido ou aventura, não deveras te torturar demasiado, de nada adiantaria, procura acalmar-te e deslizar para dentro dos tais cérebros o mais suavemente possível, para não seres triturada pelas arestas dos pensamentos, e tudo é natural, basta não teres medos excessivos ― trata-se apenas de preservar o azul das tuas asas.
Pareceu tranqüilizada com meus conselhos, tomou impulso e partiu em direção ao crepúsculo. Quando me preparava para dar volta e entrar novamente no quarto, percebi que os vizinhos me observavam. Não dei importância a isso, voltei às figurinhas. E novamente começou a acontecer a mesma coisa: algo como um borbulhar, o espelho, a borboleta (essa era das roxas), depois a janela, o telhado, os conselhos. E os vizinhos e as figurinhas outra vez. Assim durante muito tempo.
Já não era mais de tardezinha quando apareceu a primeira borboleta negra. No mesmo momento em que meu indicador e polegar tocaram suas asinhas viscosas, meu estômago contraiu-se violentamente, gritei e quebrei o objeto mais próximo. Não sei exatamente o quê, sei apenas do ruído de cacos que fez, o que me deixa supor que se tratasse de um vaso de louça ou algo assim (creio que foi nesse momento que lembrei daquele som das noites de antes: as franjas do xale na parede caindo sobre as cordas do violão de André quando rolávamos da cama para o chão). Pretendia quebrar mais coisas, gritar ainda mais alto, chorar também, se conseguisse, porque tinha nojo e nunca mais ― quando ouvi um rumor de passos no corredor e diversas pessoas invadiram o quarto. Acho que meu primeiro olhar para elas foi aquele que tive antigamente, cheguei a reconhecer alguns dos vizinhos que nos observavam sempre, o homem do bar da esquina, o jardineiro da casa em frente, o motorista do táxi, o síndico do edifício ao lado, a puta do chalé branco. Mas em seguida tudo se alargou e não consegui evitar de vê-las daqueles outros jeitos, embora não quisesse, e meu jeito de evitar isso era fechar os olhos, mas quando fechava os olhos ficava olhando para dentro de meu próprio cérebro ― e só encontrava nele uma infinidade de borboletas negras agitando nervosamente as asinhas pegajosas, atropelando-se para brotar logo entre os cabelos. Lutei por algum tempo. Tinha alguma esperança, embora fossem muitas mãos a segurar-me.
Ao amanhecer do dia de hoje fui dominado. Chamaram um táxi e trouxeram-me para cá. Antes de entrar no táxi tentei sugerir, quem
sabe aquele lugar de muito verde, pessoas amáveis e prestativas, todas distantes, um tanto pálidas, alguns lendo livros, outros cortando figuri-nhas. Mas eu sabia que eles não admitiriam: quem havia visto o que eu vira não merecia perdão. Além disso, eu tinha desaprendido completamente a sua linguagem, a linguagem que também tive antes, e, embora com algum esforço conseguisse talvez recuperá-la, não valia a pena, era tão mentirosa, tão cheia de equívocos, cada palavra querendo dizer várias coisas em várias outras dimensões. Eu agora já não conseguia permanecer apenas numa dimensão, como eles, cada palavra se alargava e invadia tantos e tantos reinos que, para não me perder, preferia ficar calado, atento apenas ao borbulhar de borboletas dentro do meu cérebro. Quando foram embora, depois de preencherem uma porção de papéis, olhei para um deles daquele mesmo jeito que André me olhara. E disse-lhe:
― Só se pode encher um vaso até a borda. Nem uma gota a mais.
Ele pareceu entender. Vi como se perturbava e tentava dizer, sem conseguir, alguma coisa para o médico de plantão, observei que baixava os olhos sobre o monte de papéis e a maneira indecisa como atravessava o pátio para depois deter-se em frente ao portão de ferro, olhando para os lados, e então se foi, a pé. Em seguida os homens trouxeram-me para dentro e enfiaram uma agulha no meu braço. Tentei reagir, mas eram muito fortes. Um deles ficou de joelhos no meu peito enquanto o outro enfiava a agulha na veia. Afundei num fundo poço acolchoado de branco.
Quando acordei, André me olhava dum jeito totalmente novo. Quase como o jeito antigo, mas muito mais intenso e calmo. Como se agora partilhássemos o mesmo reino. André sorriu. Depois estendeu a mão direita em direção aos meus cabelos, uniu o polegar ao indicador e, gentilmente, apanhou uma borboleta. Era das verdes. Depois baixou a cabeça, eu estendi os dedos para seus cabelos apanhei outra borboleta. Era das amarelas. Como não havia telhados próximos, esvoaçavam pelo pátio enquanto falávamos juntos aquelas mesmas coisas ― eu para as borboletas dele, ele para as minhas. Ficamos assim por muito tempo até
que, sem querer, apanhei uma das negras e começamos a brigar. Mordi-o muitas vezes, tirando sangue da carne, enquanto ele cravava as unhas no meu rosto. Então vieram os homens, quatro desta vez. Dois deles puseram os joelhos sobre os nossos peitos, enquanto os outros dois enfiavam agulhas em nossas veias. Antes de cairmos outra vez no poço acolchoado de branco, ainda conseguimos sorrir um para o outro, estender os dedos para nossos cabelos e, com os indicadores e polegares unidos, ao mesmo tempo, com muito cuidado, apanhar cada um uma borboleta. Essa era tão vermelha que parecia sangrar.

Conto do livro Pedras de Calcutá.

domingo, 21 de novembro de 2010

depois melhora?

Nesse exato momento estou saindo de um luto.
É incrível que quando você diz pra alguém que está triste e está difícil ser companhia logo ouvimos, ah! Já imagino, se referindo a um possível caso de amor mal resolvido; ou então , quando descobrem que é um luto original pois alguém de fato está morto e não há nada que ninguém possa fazer com isso a não ser sentir vem o máximo apoio que se pode dar: “não fica assim, a vida continua, anime-se!”
Peraí! Calma, pode ser que algo assim mobilize coisas tão antigas e tão atuais em mim que não há copo de cerveja, análise ou piadinhas que resolvam!
 Duvido que muitos também não se sintam assim. Parece que hoje a estratégia é NÃO SINTA MUITO, pois a vida continua!
Ei! Eu sei que a vida continua, não deixei de cumprir com minhas obrigações, apesar de ter algumas pendências como em qualquer cotidiano, mas onde está o direito de ficar em silêncio? O direito de dormir e acordar chorando só porque dói? Dói mesmo refletir que sentido tem essa vida. Vivemos brigando com pessoas por causa de fofocas, diferenças de opinião, personalidades contrastantes, imperfeições, detalhes... daí quando algo realmente relevante acontece eu tenho que reagir?  Eu tenho que fingir que não me pegou? Assim não.
Tenho certeza de que hoje poder vivenciar um luto, independentemente do quão próximo você era oficialmente de determinada pessoa, é um ato de coragem e de recusa dessa rapidez e velocidade que o mundo impõe. Sinto isso quando aqueles com quem eu pude ser corajosa junto vêm agradecer, não porque ajudei em nada, não sou prepotente a esse ponto, mas por estar ali, do lado, só vivendo aquela perda junto!
Por isso, agora que todo esse turbilhão está diminuindo, a campanha do colo está acabando e estou podendo elaborar tudo o que sinto a respeito dessas coisas que não entendo, mas tenho que aceitar, conviver e respeitar; agora sim eu posso começar a pensar que “DEPOIS MELHORA (...) É BOM NÃO FALAR MUITO QUE PIORA”
http://www.vagalume.com.br/luiz-tatit/depois-melhora.html

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Aprendendo a Dizer Adeus!

As vezes somos pegos por surpresas na vida em que a princípio não nos sentimos prontos.
Mas como saber para o que estamos prontos? Como saber até quando ou até que ponto devemos nos apegar aquilo já nos é tão conhecido para investir em algo que resignifique nosso lugar no mundo e pra nós mesmos?
Quando somos crianças somos impregnados de várias falas que nos marcam como orientadores pra vida, tanto coisas boas como outras que nem entendemos o porque nos impregna e nos leva a crer ou fantasiar algumas certezas.
É na infância que nos colocamos mais perguntas, seja pra nós mesmos ou para nossos pais, mas será que as respostas que encontramos nos servem pra sempre?
Como no 1º texto, esses dias fui surpreendida no ônibus por uma dúvida infantil que novamente me faz crer que tudo que buscamos é a leveza, pureza ou a simplicidade do olhar da nossa infância. Uma criança de aproximadamente uns 5 anos vira pra mãe durante o percurso e pergunta: “mãe favela é uma casa?” e a mãe atenciosa responde: “não filho, favela é um monte de casas.” Então o menino coloca uma interpretação mais coerente: “mas daí não é condomínio?”. É claro que não houve mais respostas, apenas olhares e risadas pela perspicácia do garoto. O que me chama atenção nesse caso e o que traz de volta ao tema é : o que é verdadeiramente relevante levarmos como conceito na vida?
Quantas vezes mantemos a mesma impressão sobre alguém ou alguma coisa apenas pra não corrermos o risco de repensar sobre aquilo? Será que percebemos que quanto mais amadurecemos mais pedacinhos das nossas crenças precisam ir embora ou serem recicladas para podermos seguir adiante com mais leveza e tranqüilidade?
Não paro de fazer perguntas ao leitor, mas não estou esperando respostas, quero as dúvidas que nos movem, os medos que serão vencidos, as despedidas das nossas crenças que parecem formar nossa identidade quando esquecemos que nossas identidades são muitas e nunca estarão totalmente prontas.
Da mesma forma que a morte de alguém nos faz arcar com o preço de se despedir da experiência viva mas jamais das memórias e imagens que formaram marcas daquelas pessoas na gente, penso que as vezes precisamos sim nos despedir de um jeito ou outro nosso que nos fez endurecer naquela crença por algum motivo.
Será que favela não é mesmo um condomínio? Será que a diferença está na classe social ou está na relação social de ambientes tão definidos em torno de uma segurança falsa ou angustiante.
Tudo isso me faz pensar, sentir e até agir como aquela que percebe que uma hora o risco não será mais o de queda, mas o de investimento, o de crescimento e como numa música de Arnaldo Antunes  “tem que não ter cabimento para crescer!”


Lápis Cor de Rosa

Olá!
Talvez o fato de expressar minhas opiniões vá me dar a sensação de me sentir exposta, mas revisando o sentido da palavra, exposição parece estar ligada a arte, e outro dia, ouvi que aquele que é capaz de contar sobre seus próprios aprendizados é generoso, e talvez por isso eu esteja me aventurando. Não pelo título, mas pela possibilidade da troca!
Com minha iniciante experiência em psicologia clínica tenho prestado muito mais atenção no que escuto entre as pessoas por ai, dentro do ônibus, na padaria, nos bares, caminhando na rua. É desse movimento que resolvi fazer um olhar para o sujeito criando deixas descompromissadas para raciocínio.
O que sempre me vem como exemplo é na “pureza e esperteza” das crianças, até nas  que cruzo apenas uma vez na vida! Quantas vezes não ouvimos em conversas “sábias” entre adultos com crianças por perto: “pode falar, ele não tá entendo nada!”. Nossa, quanto trabalho essa criança vai ter pra agora fingir que não estava entendendo nada?!
Certa vez no ônibus de manhã, com muitas mães levando seus filhos na creche, um menino de uns 4 anos no máximo virou contente pra mãe e disse: “meu amigo está aqui!!!” E a mãe: “é? Quem é ele?”. O garoto sem o menor problema: “aquele preto ali no banco da frente!” E a mãe ruborizada conserta o menino com um apertão: “não é assim que se diz meu filho, ele é moreninho!!”  
Claro que no mesmo momento pensei: o que muda no afeto da criança a cor? O que  de fato o que ele estava dividindo com a mãe era: “alguém que eu gosto e faz parte do meu grupo de pertença está aqui, que bom!!!”
Nós adultos, com nosso senso do politicamente correto, do anti preconceito, acabamos embutindo nas próximas gerações o medo de dizer que enquanto somos crianças, não faz diferença nossa cor. Só aprendemos isso depois!
Tanto é recorrente o fato, que no exato momento em que escrevo esse texto, escuto o filho do vizinho com a mãe: “mãe, o Michael Jackson morreu de branco!”, como não ouvi nada da mãe, apenas imagino que ela fez cara de interrogação e ele continuou:   “ele não era preto quando era criança? Daí foi ficando branco, isso era doença, ele morreu porque ficou branco!”. Com a despreocupação de ser apenas uma ouvinte e não ter de dar nenhuma resposta a criança, vou me dar o direito despretensioso de interpretar que esse garoto estava fazendo a seguinte descoberta: ele morreu porque sua identidade se transformou tanto que ele adoeceu! Claro que parece muito superficial, mas qualquer um que pensar num segundo a mais sobre isso vai ver que faz muito sentido!
 Não estou querendo dar nenhuma dica do que é certo ou errado ao falar sobre questões raciais com os filhos, pelo contrário, estou dizendo que muitas vezes nos preocupamos tanto em educar que nos esquecemos de compartilhar, no caso daquele menininho do ônibus, a alegria simplesmente foi interrompida pelo grande apertão de senso histórico.
A ironia é que o mesmo adulto que reprime as expressões “ingênuas” das crianças ensina nas aulas de arte que não existe mais a cor de rosa da geração anos 80, aquele nosso rosa agora chama COR DE PELE. Isso: cor de pele. Agora eu pergunto: cor da pele de quem? Dá uma passada desse lápis perto do braço da maioria dos aluninhos, vai ser rosa? Acho que não. Mas o rosa agora só vale Pink, com toda justificativa dos professores de artes que vão explicar que essa cor de pele vem da origem da história da arte com influência européia e etc. Mesmo assim, pras crianças a referência deveria ser cor de lápis, porque cor da pele cada um tem a sua não é mesmo?
Nem vou me alongar muito nessas questões, prefiro apenas deixar pontos pra você leitor pensar... É claro que essa mãe não é culpada de nada, nem emite nenhum julgamento sobre o fato, apenas o usei pra exemplificar algumas coisas que vem passando tão despercebidas no nosso dia a dia que pode ser que lá na frente isso esbarre em alguma outra coisa que sabemos bem o que é: hipocrisia! Agregar valor ao outro não pelo afeto,mas por obrigação.
Não custa ouvir (des)atentamente pra depois pensarmos no que estamos (re)produzindo em nossas próximas gerações, a mesma geração a que delegamos a responsabilidade de salvar o planeta, de mudar o sistema, de renovar nossas impressões sobre o mundo. Mas peraí, lembra que nós a “educamos” pensando que elas não estavam entendendo nada?

Cantinho escondido

http://www.youtube.com/watch?v=iBTYC7Q_OLE

Escolhi essa música pra filiar o meu blog pois penso que nela eu compreendo que a vida pode nos levar a qualquer caminho, podemos fazer uma grande diversidade de escolhas; porém não há como fugir do nosso mundo interno, do dentro, daquilo que a gente carrega com a gente e ninguém pode tocar...
Esse canto cativo pra voltar entendo como nosso respeito por nós mesmos, nos recolhendo antes de tomar o próximo passo!
Sejam bem vindos ao meu cantinho.