quarta-feira, 19 de outubro de 2011

A VIDA EM CÁRCERE


Como sempre, tenho a preocupação em meus textos em convidar meu leitor a refletir. Até hoje, era mais pra refletir sobre ele mesmo e ai sim se posicionar no mundo. Hoje quero fazer diferente! Quero saber o quanto estamos dispostos a olhar em volta e perceber o outro, nesse mundo tão redondo que às vezes parece estar girando em falso.
Quem acompanha os jornais, telejornais e até rodas de conversas por ai, sabe que há uma grande visibilidade sobre o uso de drogas e estamos vivendo um momento em que o CRACK está no topo da lista das discussões, sendo até levado ao extremo de ser chamado de epidemia. O que não estamos dando conta de perceber talvez seja de que lugar este sujeito está sendo visto. Será que estamos concordando com os rumos que essa historia está tomando ou será que a gente tá em silencio porque ainda não sabe direito nem o que pensar?
A grande questão é as coisas não vão parar de acontecer simplesmente porque não estamos pensando nelas e deixar que o outro tome conta disso pode envolver um risco enorme, a perda de referencia sobre que opinião temos. Então quero conversar por partes e depois ir alinhavando essas histórias.
Em primeiro lugar, as drogas sempre existiram mais ou menos perigosas, e nunca conseguiram ser de fato controladas ou extintas, pois elas fazem parte de algo inerente ao ser humano que é a pulsão de morte. Onde o desejo de prazer imediato deve ser satisfeito a qualquer custo. Ok! Minha pergunta é: porque tantas pessoas resolveram se matar ao mesmo tempo? Só porque elas são fracas? Porque a família é “desestruturada”? Porque ela tem uma pré-disposição genética? Hum, talvez devêssemos começar a nos perguntarmos se o mundo não está realmente uma nhaca e nem todo mundo aguenta!
Segundo, a todo o momento ouvimos em grandes matérias ou por relatos pessoais de familiares envolvidos que eles não sabem o que fazer com seus filhos, já nem assusta mais ver mães acorrentando seus filhos como ultima alternativa que garanta que fiquem vivos, mesmo que como animais. Claro que essas famílias não sabem o que fazer; elas não sabem nem de onde veio o tiro, como podem se proteger? Mas nosso discurso é culpabilizar essas mães que sempre protegeram demais ou pais que compensaram suas ausências dando tudo que os filhos queriam, e assim vão variadas acusações que apenas individualizam o problema sem de fato pensar na causa. Mas claro que isso funciona... alivia quem está de fora!
Terceiro, será que esse formato de saúde que está rolando realmente nos agrada? Como assim que a alternativa viável é a internação do sujeito em sofrimento psíquico usuário de droga? Alguém se lembra dos manicômios? Daquele lugar depósito onde se jogavam todos aqueles que não correspondiam às expectativas sociais e por isso eram trancafiados? Olha, garanto com veemência que o cenário de um excedente de clinicas de recuperação e/ou comunidades terapêuticas é aquele, do sujeito babando, andando com o olhar perdido, trancafiado em sua própria alma dentro de celas de castigo numa instituição, pois os bons do lado de fora não sabem o que fazer com ele. É uma pena, já que lutamos tanto para que os manicômios acabassem;  que os asilos acabassem, que os sanatórios e sanitarismos acabassem; e olha nós aqui outra vez, segregando mais seres e dizendo que quando ele estava na rua procurando crack não estava procurando conforto, agora não merece conforto nas instituições. Como se viver significasse apenas respirar e não ser tratado como vivo, capaz, sujeito em recuperação.
Quarto: será que a mídia, o 4º poder mesmo, logo depois do Legislativo, Executivo e Judiciário compreende seu papel nessa história? Será que ela sabe orientar seu discurso e formar opiniões que discutem os fatos considerando todos os lados? Ou ela está também vivendo em cárcere por não se aproximar da questão e sensasionalizar os dados, pois precisa vender jornal? Quantas vezes você leu num jornal o que fazer com o usuário de crack e nessa matéria estava escrito “não esqueça que ele também é gente”?  Tem policia, tem política, tem comércio envolvido, mas não tem oferta de reflexão e práxis. Que pena!
Quinto, ah! O Estado! Por Deus!! Vivemos em sociedade, quem constrói ela é cada um de nós, não venha me falar que não participamos, pois participamos sim. Tem ai vários movimentos sociais acontecendo, conferencias como espaço de criação de propostas baseadas na escuta da população, e o Estado... bom, o Estado faz aquilo que lhe convém no momento, por a conferencia na gaveta e pensar no ano de eleição que está por vir. Se ninguém reclamar é provável que todos achem uma graça convênios com os novos manicômios, afinal de contas instalar o que foi batalhado por pessoas que estão a par da situação de perto dá muito mais trabalho do que anunciar milhões em tratamentos que não são nem regulados. Basta a ANVISA dizer que o lugar está limpo que não suja pro lado dos gestores.
Enfim, antes que eu escreva uma bíblia, esse texto serve apenas pra dizer que o uso de drogas não é uma questão pessoal ou particular de cada núcleo e que enquanto a gente não gastar um minuto a mais pra entender o que está acontecendo, vamos apenas ser reclamões perdidos quando o problema estiver mais perto de nós. Eu tenho esse espaço pra chamar atenção e os milhões que perderam a fala?

http://www.baixarfilmesdublados.net/baixar-filme-bicho-de-sete-cabecas-nacional/

Um comentário: